sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Relembrando

Organizando a agenda par ao ano começar acelerado, dei uma pausa para lembrar daquilo que penso ser o início de toda a mudança e da própria AMAVI. Segue o link para o vídeo de nossa primeira ação em Brasília.

https://www.youtube.com/watch?v=1jsEljT6oHA

Saudades de muitas pessoas que passaram e, ao mesmo tempo, presente com o sentimento de gratidão pela ajuda de tantas pessoas e, neste caso, a querida Daniela Pascoal que fez esse vídeo e sempre foi muito atenciosa com todos nós.

Grande e fraterno abraço para toda a gente!

Notas Diversas

Reformas dos anos 90 e as novas abordagens de intervenção social (Pedro Hespanha)

- Sociedades de risco: maior modernização e maior insegurança.
- As oportunidades da globalização, dependem: recursos disponíveis e recursos repartidos de maneira desigual.
- Crise do sistema de emprego: Globalização, reestruturação industrial, envelhecimento demográfico e maiores encargos para proteção social.
- diminuição do emprego industrial + aumento do emprego flexível = maior desemprego de longa duração e maiores empregos precários.
- Estabilidade econômica por redução de custos salariais: liberalização dos mercados de trabalho, redução dos direitos laborais e desvinculação dos salários a ganhos de produtividade > geram maiores desigualdades sociais.
- É necessária a mudança de políticas indenizatórias para políticas de inserção.
- Políticas sociais de inserção: corte na ideia do Estado Paternalista; responsabilização do ator pelo seu próprio futuro alinhado com a obrigação do Estado fornecer os meios de segurança e bem-estar para toda a sociedade (Cidadão ator é diferente de Cidadão assistido); Políticas de construção.
- Combate a passividade e ao fatalismo.

The role of criticismo in the dynamics of capitalismo (Boltanski e Chiapello)
- Referências sobre o capitalismo:
            1960 até fins 1970: puro marxismo
            1970 a 1985: declínio
            1985 a 1995: ignorado
- Teoria da mudança: refuta o fatalismo material (além do que as pessoas fazem, quais as razões?); não teológico (modelo dialético baseado na conflitualidade – capitalismo x crítica do capitalismo); incompleto (o capitalismo desenvolve-se de acordo com as suas críticas).
- Capitalismo: Menor esforço (por meios pacíficos alcança a maior acumulação); cresce pela circulação e perpetuação; competição (transação entre compradores e vendedores); assalariado (venda de mão-de-obra é diferente do produto).
- Espírito do capitalismo (ideologia que justifica e torna o capitalismo atrativo): 1. Constrangimento ao processo de acumulação; 2. Cria normativas para a ordem social.
- Críticas: Social: um mundo de estímulo ao individualismo em detrimento a solidariedade; movimento dos trabalhadores. Artística (outras formas de capitalismo): liberação e autonomia, singularidade e autenticidade individual.
- Justificação para a reinvenção do capitalismo: Econômicos – não existe progresso sem tecnologia e economia; eficiência e eficácia do mercado; defesa das liberdades individuais -, Modelos que podem ser seguidos – estimulação = liberação; segurança própria e dos filhos; equidade (justiça e bem comum).
- Motivos para alteração do capitalismo em 1930: reação a crise econômica, criticismo social para formulação do Estado Providência;
- Alteração do K em 1970: recuperação da economia (criticismo artístico), individualização e crise da governabilidade.
-“O capitalismo adota os sistemas de valores do inimigo para poder sobreviver.”
- Crise de 1930:
            Corporativismo pós-guerra (organização tradicional) x Tecnocracia (organização científica)
            Doutrina corporativa (interesse coletivo > mercado)
            Oposição ao mercado e ao marxismo por destruírem a solidariedade
            Restaurar a ordem social e a harmonia com as organizações de negócio.

Da Ágora ao Mercado (Zygmund Baumann)

- Ágora: espalho público e de representação; propósito de coordenação entre o público e o privado; justamente a variação que existe entre a coordenação dos interesses públicos e privados que se percebe a democracia. (há várias democracias!)

- Democracia representativa = discussão deslocada para legitimação da opressão.

- Condições para credenciais democráticas: poder discordar, alcançar a audiência pretendida e abandonar o local.

- A exploração do mercado precisa da ação do Estado.

- Estado social = arranjo contra a privatização (exército de reserva). Princípio da comunidade endossada é um seguro coletivo que transmuta a regra do egoísmo (desconfiança e suspeita) para a regra da igualdade (confiança e solidariedade).

- A sociedade é um bem comum que atua na proteção contra o tríplice veneno (silenciamento, exclusão e humilhação).

- O aumento da individualidade e busca do bem-estar individual coloca em descrédito a democracia representativa.

- Maior Medo = Maior Insegurança

- Risco da democracia: Proteger o social dos medos ao invés de proteger a utilidade social dos cidadãos; fadiga da liberdade para os outros.

- Como o local influencia o global, inexiste a democracia local.


Uma Requiem para o comunismo (Zygmund Bauman)

- Comunismo, sólido/moderno: resposta às fragilidades dos laços e aumento do mercado.

- Projeto da modernidade: reação a decadência das estruturas e reformulação dos laços sólidos.

- Duplo pecado do K: Esbanjamento (produção excedente) e Injustiça (maior exploração)

- Direito a propriedade privada da produção coloca a lógica da produção maior que a lógica da satisfação.

- Inexiste a revolução proletária porque a satisfação dos trabalhadores está dentro da lótica do K. O suborno da burguesia trabalhadora a inexistência da consciência impossibilitam a revolução a partir dos trabalhadores.

- Comunismo (Lênin) é o atalho para a revolução: sentença de morte à solidariedade humana; cortar quem não se encaixa; pleno controle do destino; ascensão da modernidade sólida.

- A modernidade líquida matou o comunismo. (desejos infinitos e redes sociais)

- O projeto do comunismo não foi implementado. Há a morte do comunismo?

Resumo 14: A reinvenção solidária e participativa do Estado

Infor

Nota bibliográfica: Santos, B.S. A reinvenção solidária e participativa do Estado. Oficina do CES n. 34. 1999. Centro de Estudos Sociais, Coimbra.

Infos sobre o autor:http://www.boaventuradesousasantos.pt/ 
OBS: Texto organizado em notas

- Paradigmas da transformação social da modernidade: Revolução – Contra o Estado; Reformismo – Pelo Estado.
- O reformismo do Estado foi a reinvenção/proteção dos cidadãos.
- Interesses da sociedade capitalista: Regulação do trabalho, Proteção social contra os riscos sociais, Segurança contra a desordem e a violência.
- “Na medida em que uma dada condição social se repete não melhora e na medida em que melhora não se repete.”
- A mudança social ocorre em três níveis: Articulação entre repetição e melhoria, Medidas reformistas e Indeterminação e Opacidade(plasticidade e abstração) das políticas reformistas.
- Estado nacional na mudança social: Acumulação (estabilidade da produção capitalista), Hegemonia (lealdade para estabilidade do Estado) e Confiança (estabilidade das interações humanas).
- Década de 80:
            Capitalismo global + Consenso de Washington = Desestruturação do espaço de negociação e desmantelamento da capacidade financeira e de regulação do Estado (Estratégias do Estado para acumulação).
- “A estragégia não foi a de enfraquecer o Estado mas uma articulação entre o princípio do Estado e do Mercado para um maior alinhamento do Estado com o capitalismo global.”(lógica mercantil).
-“Com a queda do muro de Berlim, o reformismo (fortalecimento do Estado) deixa de fazer sentido.”
- Reformismo: Estado como instrumento de transformação social.
- O fim do reformismo social (reforma do Estado):
            Estado irreformável (dominado pelo capitalismo): O Estado deve ser confinado (Estado mínimo)
            Estado reformável (tipo diferente de Estado Providência e Estado Desenvolvimentista): Final dos anos 90, percebe-se que o capitalismo global precisa de Estados fortes; Reformismo social (Estado), Reformismo Estatal (setores da sociedade para intervenção do Estado).
- “A sociedade nacional é o espaço miniatura de uma arena social global.
- Estado-empresário: Privatização de funções não exclusivas; Administração pública = empresarial; descentralizar o poder conforme mecanismos de mercado.
- Objetivo inicial do terceiro setor: Combater o isolamento do indivíduo face ao Estado, a organização capitalista e da sociedade.
- “Enquanto o terceiro setor, em países centrais, surge de maneira endógena, em países (semi) periféricos, tender a ser por pressões externas e internacionais.”
- “somente da interação política entre os cidadãos pode surgir uma vontade geral não distorcida.”
- O terceiro setor é uma fonte de corporativismo.
- Debates comuns no terceiro setor: relação público x privado (quais condições contribuem para reformar o Estado?); Organização interna e transparência; Redes nacionais e transnacionais; relações com o Estado.
- Prestações de serviços pelo terceiro setor: Países centrais – serviços que eram produzidos pelo Estado; Países (semi)periféricos – serviços que nunca foram prestados pelo Estado ou eram prestados pela comunidade.
-“A transformação dos membros ou beneficiados das associações em clientes ou consumidores, pode reforçar o perigo do autoritarismo. [...] ora o terceiro setor é força de resistência das relações de poder autoritárias, ora é um instrumento para aumentar essas relações.”

- Estado x Terceiro setor: Enquanto instrumento de Estado; Enquanto amplificador de programas sociais; enquanto parceiro na estrutura de poder e de coordenação.

Resumo 13: Raízes de um Paradigma Indiciário

Nota bibliográfica: Ginzburg C. Sinais - Raízes de um Paradigma Indiciário. Mitos, emblemas, sinais: Morfologia e Historia. São Paulo, SP: Companhia das Letras; 1989. p. 143–80.

OBS: Texto organizado em notas

- Saber indiciário = a partir de indícios (conto do cavalo)
- Sacrifício do individual à generalização: 1. Ciências naturais, 2. Ciências humanas.
- “A tendência a apagar os traços individuais de um objeto é diretamente proporcional à distância emocional do observador.”
- Conhecimento individualizante = etnocênrico
- Paradigma divinatório (conhecedor individual) x Paradigma generalizante (como chegar ao vivo a partir do cadáver?)
- “Não se quantifica precisamente nas ciências humanas devido a forte presença indidividual.”
- “As formas de saber (experiência) são incapazes de servir-se da abstração.”
- “O acesso a determinadas experiências torna-se, cada vez, mais, mediados pelas páginas dos livros.”
- A adivinhação é voltada para o passado.
- Modelo epistemológico comum: indiciário, divinatório e venatório
- “A assinatura foi a segurança da sociedade burguesa.”
- A impressão digital surge, após várias tentativas, como uma garantia de encontrar o indivíduo.
- A impressão digital partiu dos estudos que eram realizados na ìndia onde, primeiro se utilizou, para identificar os indivíduos bengaleses para a coroa britânica.

- “Ninguém aprende o ofício de conhecedor ou de diagnosticador, limitando-se a por em prática regras preexistentes.”

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Bom ano de 2015!

Bom ano para todos/as!

Esse ano começa com algo que, para mim, é bastante importante: a publicação de uma comunicação.

A revista Tempus - Saúde Coletiva, aceitou a publicação do resumo de minha dissertação e a publicou no V. 8, n.3 em 2014.

http://www.tempusactas.unb.br/index.php/tempus/article/view/1574/1340

A publicação é importante porque, basicamente, é a academia validando a pesquisa. Já tinha publicações pelo CES, da Universidade de Coimbra, jornais e até um livro. Mas a publicação em revista é, de partida, mais difícil. Para mim, ser na Tempus ainda tem um gosto especial. É na minha Universidade, UnB. Onde eu estudei e de onde faço parte. É da revista de minha cidade. Amo Brasília com tudo o que há nela e tentar elencar as partes que gosto é deixar outras de lado porque serão necessários mais que alguns minutos para selecioná-las.

Enfim, o ano que passou foi um dos melhores de minha vida e, seguramente, o melhor de minha família. Por isso eu somente tenho que agradecer a tudo e a todos/as que fizeram 2014 acontecer. Gratidão é o sentimento que está presente nestes dias! Gratidão por tudo! Espero que as energias que impulsionaram-me retornem com mais força, intensidade e amor à sua origem.

Muito obrigado e grande abraço!

Rogério

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Título 12: A saúde enquanto matéria política

Autor(as/es): Carapinheiro, Graça
Infos sobre o/a/s autor/a/s:
http://www.cies.iscte.pt/investigadores/ficha.jsp?pkid=22

Título: 
A saúde enquanto matéria política



No mesmo ano do trabalho da professora Carapinheiro, 2006, o prof. João Arriscado Nunes, publica um artigo que constata a crescente importância das pesquisas ligadas a saúde e a medicina, dentro das ciências sociais e humanas, nas três últimas décadas. Neste trabalho, o professor anota o aumento de interesse pela saúde por meio de diferentes fontes que vão desde o crescente número de artigos sobre a saúde ou número de publicações especializadas até “a incorporação das ciências sociais e das contribuições destas na formação e pesquisa em saúde[...]”(Nunes, 2006;2). Além da intenção de contribuir para um alargamento da discussão sobre o papel das ciências sociais nas pesquisas em saúde, o artigo possui os objetivos de 1. apresentar reflexões sobre os modos de intervenção dos cientistas sociais na saúde e na medicina, 2. identificar os principais eixos temáticos e orientações das ciências sociais que contribuem para um debate transnacional de resgate de problemas secundarizados, negligenciados ou silenciados pelos estudos do norte. Em relação aos modos de intervenção dos cientistas sociais, o autor  apresenta a necessidade de criar uma concepção solidária destes com a saúde. A concepção solidária diz respeito a participação do cientista social na promoção de qualquer atividade que garanta a saúde como um direito fundamental e, principalmente, a realização de ações que promovam o aparecimento de qualquer forma de discriminação ou exclusão do exercício desse direito, que pode ser pela produção do conhecimento biomédico em saúde; denúncia a violações do direito a saúde e dos direitos humanos; produção coletiva de testemunhos de privação e qualquer tipo de sofrimento; reconhecimento da saúde como um direito de todos; definição de formas de ação afirmativa; pesquisa de maneiras participativas sobre ações de promoção e defesa da saúde; promoção ou facilitação dos cidadãos no debate público; a reorientação da bioética e da ética médica.
O livro organizado pela profa. Carapinheiro possui textos que abordam uma ou mais das produções de conhecimento elencadas por Nunes. Em particular ao artigo que tomo como base para este trabalho enquadra-se no reconhecimento da saúde como um direito de todos. O referido artigo ergue-se sobre a análise de documentos do governo, estudo empírico com profissionais de saúde e pacientes, e pesquisas que a professora fez parte no passado. Nesta base, na primeira parte do texto, a pesquisadora apresenta o alinhamento das políticas do serviço de saúde português com as diretrizes internacionais sem, contudo, relegar a forte influência dos interesses nacionais. Com isso, constrói uma perspectiva conflituosa entre “a produção de políticas públicas nacionais, cujos interesses eram predominantemente de carácter paroquial e com alcance social limitado, face os impulsos modernistas, de larga amplitude nacional, que se ensaiavam na Europa desde o princípio do século passado.” (Carapinheiro, 2006; 139). Essa perspectiva ainda é ilustrada pela metáfora de uma oscilação pendular que evidencia a conflitualidade entre interesses internacionais e nacionais na produção da política de saúde e, também, entre o passado e o futuro das ideias sobre a saúde. A conflitualidade entre as diretrizes internacionais e os interesses nacionais existentes no direcionamento de todo o sistema de saúde também pode ser reconhecido nos direcionamentos que Portugal realiza para as doenças raras. Em 2008, seguindo as diretrizes pactuadas em um congresso organizado pela EURORDIS[1], Portugal cria o Plano Nacional para as Doenças Raras. A primeira vista, a largada para a corrida de criação de planos europeus para as doenças raras teve em Portugal um dos seus agentes de frente. Contudo, considerando a realidade interna do país que, no mesmo ano, começava a entrar em recessão imposta pelo mercado financeiro,  a implantação do plano foi postergada seguidamente e, até 2014, o país ainda não conta com a efetividade de seu plano.
O sistema de saúde português possui a característica de, primeiro, realizar o alinhamento com as diretrizes internacionais para, então, e em tempo indeterminado, promover a aplicação prática das diretrizes internamente. Assim como, atualmente, há a postergação da implantação do Plano Nacional para as doenças raras, as diretrizes para os Centros de Saúde e cuidados primários, criados na década de 60, somente foram colocados em práticas 20 anos depois de sua criação oficial. Em particular ao atraso destas diretrizes, principalmente da saúde preventiva e cuidados primários, é uma das bases que levou o sistema da saúde à centralidade da visão hospitalocêntrica e, consequente, marginalização dos serviços dos Centros de Saúde e seus  profissionais. Assim, desde o século passado, as reformas em saúde “desinvestem nos cuidados primários e dão prioridade aos recursos técnicos, materiais e humanos do hospital, reforçando sempre a sua centralidade no sistema.”(Carapinheiro, 2006; 145). Realizando, na primeira parte o texto, a construção histórica do serviços da saúde, com a caracterização que seus fundamentos foram criados na década de quarenta (principalmente as perspectivas curativa, preventiva e construtiva da saúde), como resultado de políticas internacionais e que os anos seguintes foram destinados para a realização de uma organização interna que sustentasse a estrutura criada, seja pela contratação de pessoal ou por medidas de regimento e política internas, a autora elucida a vulnerabilidade do sistema de saúde e conclui que a saúde pública está em risco. Sintetiza que as oscilações baseiam-se nas ideias do passado que se reencontram nos "momentos de viragem" da saúde, para uma reevocação ideológica de caráter assistencial (submetida a lógica da modernização), hospitalocêntrica (inovações e novos modelos de gestão) e sanitarista (regulação internacional).
Na segunda parte do texto, que pode se enquadrar na pesquisa de maneiras participativas sobre ações de promoção e defesa da saúde, a autora identifica a influência das orientações políticas nos saberes dos profissionais da saúde. Primeiramente, relembra da importância de organização hospitalar no processo de conhecimento do sistema de saúde. No trabalho que desenvolveu, descobriu que o poder médico baseava-se na dominância da divisão do trabalho hospitalar e que essa dominância gera a periferialização de outras profissões. A relação de dominância replica-se tanto nas relações entre hospital e centro de saúde quanto nas relações sociais. Nesse sentido, tangencia a ação solidária de produzir condições teóricas para a reorientação da bioética e da ética médica. Em seguida, ao analisar as associações profissionais, destaca a maior vulnerabilidade das profissões não médicas para a conservação estratégica dos saberes e delimitação das fronteiras profissionais, que influenciam a posição na organização da divisão do trabalho. A partir desta constatação a autora pensa nos lugares marginais do sistema de saúde preenchidos, principalmente, pelos Centros de Saúde (CS) e os profissionais que lá atuam. Também, a autora sinaliza a precarização dos próprios serviços de saúde primário onde, apesar do discurso e orientações políticas, nada é feito de maneira prática para tornar a medicina preventiva e o trabalho e em equipe, bases do CS, efetivas. A autora se faz deste último argumento para concluir a segunda parte do texto com a constatação 1.de novos atores que desafiam as fronteiras de saberes, 2.andamento de processos para reconstituição de identidades profissionais e 3. a revisão contínua do valor social das profissões a partir do caráter estratégico dos saberes periciais.
O título a saúde enquanto culturas em conflito, aborda a relação entre paciente e profissionais médicos e se enquadra na promoção ou facilitação dos cidadãos no debate público. De acordo com a autora, enquanto aqueles utilizam estratégias e recursos, formais e informais, para contornarem os obstáculos do sistema de saúde, os profissionais médicos não reconhecem o esforço dos indivíduos e garantem um lugar subalterno do saber construído pelos leigos. É neste contexto entre saber e não saber, conhecimento e não reconhecimento, que a autora destaca a importância sociológica em perceber o sistema de saúde como um sistema de resistência ao saber leigo.
A última parte do texto desperta todos os sentidos que poderiam estar distraídos e, sem dúvidas, é o mais interessante, apesar de ser o mais curto. Por tocar na validade da produção de conhecimento leigo para a saúde, vem a tona todos os estudos que defendem essa validade e que abordam o sofrimento dos doentes que não conseguem ser acolhidos pelos Sistemas de Saúde. Enquadra-se nas perspectivas de (Callon & Rabeharisoa, 2003) sobre a “pesquisa na selva” [2] para expressarem o cenário que se abre às pessoas que se jogam para o entendimento sobre alguma doença e posicionam-se como especialistas pela experiência, no mesmo patamar dos médicos e, portanto, no direito de contenção do saber/poder médico. Com isso, retomando a ideia do professor Nunes, sobre os principais eixos temáticos e orientações das ciências sociais para a saúde como a biomedicalização, biosocialidade e biopoder; a “velha” e a “nova” saúde pública; o público e o privado; acção colectiva e participação; saúde e direitos humanos, o texto de Carapinheiro e todo este trabalho enquadram-se nos eixos de acção coletiva e participação, e saúde e direitos humanos.




[1] Organização europeia para as doenças raras, www.eurordis.org
[2] Tradução livre para “research in the wild”.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Resumo 11: Contributos para uma discussão do conceito de rede na teoria sociológica

RESUMO 11
Autor(as/es): 
Portugal, Sílvia
Infos sobre o/a/s autor/a/s:
http://www.ces.uc.pt/investigadores/cv/silvia_portugal.php

Título: 
Contributos para uma discussão do conceito de rede na teoria sociológica



A autora inicia com a constatação do uso do termo redes nos diversos domínios. Afirmando não ser uma construção da atualidade, coloca no desenvolvimento da comunicação e no fortalecimento das relações entre as pessoas como as razões para a diversidade de uso do termo. A potencialidade dos estudos das redes faz com que sejam utilizadas para campos diferentes do da sociologia e, alguns cientistas da fisica, assuem o argumento que há alguma conexão entre todos e assim a rede é uma (inter)conexão de pessoas. Apesar de utilizado desde os anos 30 e 40, somente na segunda metade do sec. XX que o conceito de rede social assumiu um papel central no campo sociológico, com a criação de diversas publicações, revistas, grupos e etc sobre o assunto. O conceito das redes surge para contrapor a forma analítica estrutural-funcionalista onde não se conseguia perceber as interações em sociedades mais complexas. Não há como (re)conhecer o autor original que iniciou os trabalhos sobre as redes sociais mas, parece, existir uma unanimidade ao redor de Barnes, que estudou uma comunidade de pescadores em Bremmes. Com o aprofundamento dos estudos, conclui-se que a formação das redes influencia na formação social dos indivíduos. Fica evidente na constatação que quanto maior a conexão entre os membros de uma família mas segregados são os trabalhos entre Homem e Mulher. O estudo das redes de maneira estruturalista, tendo a relação como uma determinante social, tornou-se mais evidente e assumiu uma importância maximalista. Dentro da teoria das redes sociais são encontrados quatro princípios fundamentais que versam sobre os atores e suas ações são interdependentes, os laços são canais de fluxo de recursos, as estruturas das redes configuram oportunidades e constrangem a ação individual e os modelos de redes conceitualizam a estrutura como padrões constantes de relações entre atores. Por fim, enfatiza-se que a análise das relações entre os indivíduos que pode fornecer uma visão mais específica e completa da estrutura social. Há o entendimento que assim como há o constrangimento das relações sociais sobre o indivíduo, esse interage com a mesma estrutura de acordo com os seus interesses.
No capítulo Um novo paradigma? contextualiza o que é a quebra de um paradigma quando isso revela-se uma nova forma de ver o mundo onde o novo e o velho paradigma são irreconciliáveis. Baseando-se na identificação de uma falta unidade nos próprios estudos sobre as redes e a falta de unicidade na sociologia, a autora afirma que não é possível falar de um novo paradigma. Contudo afirma-se que os estudos das redes sociais buscam uma alternativa ao debate simmeliano em que os indivíduos formam a sociedade ou essa forma os indivíduos.
Em relação ao titulo sobre o capital social, assim como as redes sociais é um tema de moda que ganhou grande visibilidade a partir dos anos 90. E, assim como as redes sociais, não se sabe até que ponto pode ser tratado como uma nova ideia. Considerando a posição do capital social nas relações, o seu entendimento é indissociável da análise das redes sociais. A partir do conceito de Marx sobre o capital como uma forma de conseguir o lucro, o capital social parte da ideia que os indivíduos interagem com a sua rede para conseguirem gerar lucros. Lucros que, portanto, são produzidos pelo envolvimento com o mercado, seja ele econômico, político, de trabalho ou na comunidade. São quatro os fatores existentes na rede social, que condicionam o comportamento dos indivíduos, e são vistos como capital social: o fluxo de informações como um fator de conhecimento dos indivíduos, a influência dos laços nas decisões, os laços sociais como credenciais e o sentimento de identidade e reconhecimento. AS tradições do pensamento sobre o capital social partem de Pierre Bourdieau, James Colemas e Robert Putman. A autora adiciona a esses, os pesquisadores que emergem dos estudos sobre a teoria das redes como Nan Lin, Ronald Burt, Peter Marsden e Barry Wellman. Para Bourdieu o capital social é construído a partir das interações com as redes sociais como investimentos passíveis de serem utilizados como fontes de benefícios. Coleman caracteriza o capital social quanto a sua função e o distingue de diferentes formas (obrigações e expectativas, informações, normas...) ao passo que identifica os fatores que contribuem para a criação, manutenção e destruição do capital social. Putman possui uma abordagem diferente sobre o capital social. Ele parte da dimensão normativa que surge das relações sociais. Defende que as redes possuem formas e funções diferentes. A separação do pensamento sobre o capital social, portanto, possui duas perspectivas, uma que o percebe como bem público e outra que analisa as vantagens privadas que se pode obter da rede. Assim há a operacionalização "do capital social através das normas, valores e atitudes, visíveis em unidades macrossociais; os segundos realizam uma abordagem sócio-estrutural, através das redes e dos laços sociais." Os autores que abordam a teoria das redes superam alguns limites do pensamento sobre o capital social e consegue um olhar para as dimensões das estruturas sociais, dos recursos e da ação. Assim como toda outra forma de capital, o capital social também pode ser usado de maneira negativa. Como para a ascensão social(exclusão dos de fora do grupo), o resserceamento da iniciativa individual e a conformidade. Ao enfatizar o papel individual nas redes sociais, deixa-se de lado a intervenção do Estado e, assim, acaba responsabilizando o indivíduo por toda sorte de situações em que se encontra, culpabilizando as próprias vítimas.
Para a operacionalização das redes a autora centra a atenção, dentre as perguntas que são formuladas para a identificação das redes, na questão Quem?. A partir daí, identifica os nós, que são os elementos que possuem alguma relação com o ego(unidade social, que pode ser física, jurídica, formal ou informal). A caracterização dos laços, que podem possuir diferentes perspectivas, e dos nós, permite identificar propriedades morfológicas das redes, como: dimensão, densidade, orientação, polarização, segmentação, sobreposição ou dissociação. O restante do capítulo é dedicado a exemplificar as formas de coletar as informações nas redes e, também, tipificar as próprias redes.
A autora finaliza com a concordância com Latour, em que a network analysis torna visível os atores e recoloca no centro da discussão sociológica a interação social.

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