quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Resumo 05: O Reconhecimento de uma produção subjetiva do cuidado

RESUMO 05
Autor(as/es): Franco, Túlio;
Merhy, Emerson Elias
Infos sobre o/a/s autor/a/s:
Franco: http://www.professores.uff.br/tuliofranco/


Merhy: http://www.uff.br/saudecoletiva/professores/merhy/

Título: O Reconhecimento de uma produção subjetiva do cuidado

O ensaio parte do princípio que a subjetividade deve ser considerada no modelo de produção da saúde. Parte da pesquisa das ESF onde, apesar do padrão de atendimento, os resultados são diferenciados em cada familia devido a atitude ativa do individuo.
Por meio da análise cartográfica, baseada na produção da realidade social; o desejo como fundamento da produção subjetiva e a Teoria do trabalho vivo, o autor pretende superar a intensidade subjetiva da avaliação qualitaitva.
Na construção do Rizoma é abordado que as análises realizadas do meio estão sob o prisma da horizontalidade e na relação existente entre os indivíduos que acabam por impactar o seu platô, o lugar de produção. O Rizoma é formado por vários platôs. Portanto parte-se de uma premissa onde o trabalhador da saúde e o usuário impactam-se mutuamente.
O afeto existente na relação entre trabalhador e usuário pode gerar tanto a satisfação quanto o contrário. E a forma de agir do cuidado estará dependente desta percepção.
A realidade social é fruto do desejo e, por ele, se constrói as subjetividades desejantes que acabam constituindo o mundo (semelhante as ideias de Weber).

Na abordagem sobre o Desejo, parte-se do princípio que o desejo é a mola propulsora para construção da realidade e, portanto, é um sentimento revolucionário. Baseado em Merhy, partindo do princípio de uma interação entre paciente e profissional, afirma que o processo de trabalho em saúde é sempre relacional. Neste mesmo sentido o texto do Serapioni possui conclusões semelhantes. Por fim desta parte o autor conclui que o trabalho em saúde, trabalho vivo, deve-se levar em conta as particularidades do local em que se desenvolve, em um plano de consistência, onde os afetos criados entre trabalhador-usuários (re)signficam a relação de cuidado.

Em a Cartografia: produção subjetiva da micropolítica, há o esclarecimento sobre a cartografia, que trata da análise de um processo e não apenas o estudo de um objeto. O autor inclui "fatores de afetivação" como uma forma de resiginificação do indivíduo e do mundo. A partir do reconhecimento da intervenção subjetiva do pesquisador sobre a pesquisa o autor afirma que o "processo de produção de si e do mundo como algo simultâneo, legítimo e inexorável." Desta forma coaduna com outros cientistas que possuem o mesmo reconhecimento como HUBBARD et al 2000. Os territórios existenciais, que são compostos pelas experiências que o indivíduo possui durante a vida, são subjetivos e influenciam na forma de cuidado. Porque esse será moldado não pelo local físico onde ele é oferecido mas dentro do território existencial que o trabalhador de saúde ocupa sua posição ético-política de atuação. Após algumas considerações sobre a cartografia que a afirmam como uma técnica de captar o processo de produção do cuidado o autor revela a preocupação em capitar não somente a produção mas a reprodução de formas e normativas que enquadram a ética do cuidado. Por isso, tece um alerta para que a cartografia também seja capaz de captar esses processos de reprodução da realidade.

Em Cartografando a produção do cuidado, o autor inicia com a ideia que a construção e implantação do SUS impactou diretamente na reconfiguração da oferta do cuidado por resultar da e na construção de novas subjetividades de interação. Tambem, com a institucionalização do SUS o cuidado acaba por se transformar em uma produção de procedimentos. Reconhece e faz uma crítica a realidade procedimental em que se pauta o SUS que vive o paradoxo de ter que ser formular e comaltar em procedimentos para a oferta de cuidado ao mesmo tempo esse é realizado de maneira subjetiva e muito individualizado. Na parte final do trabalho o autor realiza uma análise crítica sobre o SUS e o modelo biomédico para a saúde. Enfatiza que para a mudança do cuidado hoje baseado em processos e burocracia é preciso uma desterritorialização do campo da saúde onde a lógica capitalista é determinante. 

Resumo 04: Judicialização das políticas de saúde no Brasil: uma revisão sobre o caso do acesso a medicamentos

RESUMO 04
Autor(as/es): Túlio Franco
Infos sobre o/a/s autor/a/s:
 http://www.professores.uff.br/tuliofranco/



Título: Judicialização das políticas de saúde no Brasil: uma revisão sobre o caso do acesso a medicamentos

O aumento da judicialização para o acesso a medicamentos chama a atenção para o fato de ter acontecido de maneira muito rápida. Baseadas na obrigação do Estado em garantir a saúde dos indivíduos as decisões judiciais, quase na totalidade, são a favor dos pedidos judiciais, mesmo quando não há a reserva orçamentária ou comprovação da eficácia dos medicamentos.

O direito do indivíduo a saúde possui a sua defesa nos poderes legislativo, executivo e judiciário. Esse atua para salvaguardar o direito do cidadão quando se considera lesado. O decisor judicial, para a garantia do acesso ao medicamento, deve tomar a sua argumentação de maneira interdisciplinar e baseado nas inovações que acontecem no próprio meio da produção de medicamentos. Em busca do fornecimento de maiores dados para os decisores judiciais é necessário que o direito esteja subsidiado pela saúde coletiva que buscará fazer com que a decisão seja realizada dentro da perspectiva do uso racional dos recursos disponíveis para a saúde.

O mercado de medicamento brasileiro é um dos cinco maiores do mundo e considerando a estratificação social, o volume do consumo de produtos diminuem conforme a classe social. As diretrizes para a política nacional de medicamentos são baseadas: na adocção de relação de medicamentos essenciais, regulamentação sanitária dos medicamentos, reorientação da assistência farmacêutica, Promoção do uso racional de medicamentos, Desenvolvimento científico e tecnológico, promoção da produção de medicamentos, garantia da segurança, eficácia e qualidade dos medicamentos, desenvolvimento e capacitação de RH.

Baseado em pesquisas realizadas em bases acadêmicas sob as palavras judicialização e medicamentos e, também, em estudos predecessores, o autor ressalta o aumento exponencial dos casos de judicialização nos últimos anos. E ancora-se no argumento que a judicialização é o dispositivo para o acesso a novas tecnologias.

Resumo 03: The Dynamic of patient organizations in Europe (Conclusion)

RESUMO 03
Autor(as/es): Akrich, Madeleine; Nunes, João Arriscado; Rabeharisoa, Vololona

Infos sobre o/a/s autor/a/s:
Akrick: http://www.csi.ensmp.fr/en/equipe/chercheurs/madeleine-akrich

Nunes: http://www.ces.uc.pt/investigadores/cv/joao_arriscado_nunes.php
Rabeharisoa: http://www.csi.ensmp.fr/en/equipe/chercheurs/vololona-rabeharisoa


Título: The Dynamic of patient organizations in Europe (Conclusion)


As conclusões são realizadas a partir da análise sobre as entrevistas e dinâmicas realizadas com um grupo de militantes, formados para o trabalho. Assim, são realizadas análises e indicações sobre cada ponto que os autores entenderam como importantes.

Contribuição das organizações de pacientes para transformação, produção, circulação e governação do conhecimento


As associações entendem o seu papel na produção e circulação de conhecimento e desenvolveram diferentes atividades no campo da saúde:
- Atividades que contribuam para o aumento do conhecimento do paciente sobre as doenças, tratamentos, cuidados e etc. interferindo na transformação do seu relacionamento com o profissional de saúde.
- O envolvimento das associações nas pesquisas tende ao crescimento e, frequentemente, são consultadas para se ter um outro ponto de vista sobre tratamentos ou medicações específicas, ações relacionadas ao aumento da qualidade de vida ou, ainda, ligadas a obrigações éticas. Assim, atuam como agentes intermediários entre pacientes e pesquisadores.
- Sob o ponto de vista do paciente, envolvem-se em publicações de guias ou recomendações de melhores práticas para a saúde.
- A participação nas pesquisas científicas são de diferentes maneiras. Podem ser desde a liderança na produção do conhecimento quanto na delegação desta produção para pesquisadores e médicos.

Problemas, dificuldades e riscos

- As organizações possuem diferentes formas de presença nas comissões e organizações institucionais da saúde. Com exceção nos países mais liberais, a sua intervenção não é reconhecida com o mesmo valor que a de de outros agentes da saúde;
- Há a predominância do trabalho voluntariado. Ainda existe a falta de reconheicimento sobre a necessária compensação financeira para os representantes das associações.
- A ciência sobre as pesquisas que participam é, praticamente, nula. Assim, a sua participação restringe-se ao recrutamento de pacientes.
- Os recursos para treinamento são escassos seja pela dificuldade em conhecer as pesquisas ou por  recursos financeiros limitados. Uma forma que encontram para contornar essa situação é a atuação em conjunto entre as associações.
- É reconhecido que as associações possuem uma "mina" de conhecimento em mãos. Mas, por insuficiência de material ou financeiro não conseguem deixar as informações para outros autores que possuem interesse.

Organizações de pacientes e atores econômicos: oposição, instrumentalização ou cooperação.

O jogo econômico entre as associações e outros atores toma a centralidade de grande parte das discussões e não há um entendimento compartilhado, entre as associações, sobre a influência dos interesses econômicos.
As associações aproximam-se da industria para conseguirem levantar fundos financeiros ou desenvolverem pesquisas e inovações tecnológicas. Oposição, instrumentalização ou cooperação coexistem em diferentes estágios de relacionamento entre associação e indústria.
A forma de cooperação com a indústria varia de acordo com a percepção da assimetria de poder envolvido.
Os autores argumentam que é perceptível a transformação de algumas associações do modelo receptivo para o pró-ativo. Contudo não há indicação de como essa transformação é feita ou qual a motivação para esse posicionamento.
Identificou-se que o distanciamento das associações da indústria possui três eixos: aquelas que negam a ideia de doente ou pessoa doente, como os surdos, outras que se percebem a manipulação dos pacientes e associações pela indústria e, por fim, aquelas que estão envolvidas com o questionamento sobre o processo de liberação de medicamentos realizado pela mesma empresas e em diferentes países que impulsionam os pacientes para a terapia medicamentosa e não para prevenção.
A parceria realizada entre Associações de pacientes e Associações de profissionais tende a ser mais equilibrada para busca do diálogo com a indústria uma vez que aquelas agem como intermediadores entre associações e indústria.
A primeira recomendação é o reconhecimento da necessidade de considerar todos os interesses das indústrias quando aproximam-se das associações. Há a necessidade de encontrar um meio de convergência entre o que é vantajoso para a indústria e para a Associação.
As demais recomendações tratam da criação de centros de pesquisas para realizarem a intermediação entre os pacientes e as industrias, o fortalecimento das parcerias entre pesquisadores, associações, industria e associações de pacientes; a criação de iniciativas que apoiem a participação das associações e pessoas no processo de pesquisa e desenvolvimento da medicação.

Processos sociais e políticos para criação de networks, coalisões e trabalhos coletivos

Há certo consenso sobre a necessidade de realizar "coalisões" entre as associações. Desta feita, as indicações realizadas pelos pesquisadores referem-se a melhorias e o como seguir adiante. Apesar da união entre as associações ser vista como um risco da perda de identidade ou de objetivos, há a concordância que além da legitimação proporcionada pela coalisão, existe uma maior legitimidade perante os legisladores.
Uma das dificuldades de praticar a coalisão entre as associações é a de não ser fácil de encontrar propósitos comuns ou eles não estarem claros para todos os envolvidos. Esses propósitos devem ser definidos, trabalhados e negociados. A convergência para uma associação única, pode gerar um enfraquecimento daquelas que a formam. Porque como não se consegue chegar ao senso comum, as "lutas" acabam por esvair-se entre as diversas demandas. A "polderização" entre as associações que formam a coalisão, para ser evitada, exige uma governança onde todas as associações sintam-se participantes e integrantes. Os escassos recursos financeiros, materiais e humanos que assombram as associações em geral tb impedem o desenvolvimento de seus membros tanto no campo técnico quanto científico. Ao mesmo tempo que se necessita de recursos para saber mediar as ações entre associação e sociedade, é preciso ter conhecimento para gerir a organização.
Dentre as recomendações está a necessidade de se fazer mais transparente as formas que as associações escolhem para realizar suas parcerias e alinhamentos; Encontrar ou construir formas de compartilhamento de conhecimento entre as associações; Possibilitar as associações experimentarem novas formas de governança, especialmente, a nível europeu.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O uso da bicicleta como uma jaula antidemocrática

Li em algum dos últimos textos que é comum a tomada de causas de um povo dominante pela população que vive a dominação.

O texto era muito interessante e essa afirmação colocou-me a matutar um pouquinho. Lembrando a minha avó "A necessidade faz o ladrão". Isso quer dizer que as nossas ações são reflexos não somente das oportunidades que fomos expostos durante a nossa vida mas, também, daquilo que achamos como necessidade. Uma "necessidade mundial" comum nos últimos tempos é o apelo ao uso da bicicleta como transporte. Os argumentos vão desde que essa opção faz bem à saúde até a sua contribuição para o bem coletivo. Sem questionar o prazer que é andar de bike ou Camelo, para os "calangos do cerrado", e os bens que traz para a nossa saúde física e mental, pensar no seu uso como transporte é um exercício mental interessante.

Seguramente, o costume em usar a bicicleta como transporte, lê-se seguir para o trabalho, tem bases muito menos idealistas que as de hoje. Tomamos por base um agrupamento familiar com trabalhadores que vivem com um salário mínimo. Para que todos os desejos da família caibam dentro de seu orçamento, é preciso que os seus membros realizem opções de consumo diariamente (reforço o caso de tomada de um exemplo uma vez que essa opção é real para toda a população, mas em diferentes graus e formas). Assim como os primeiros homens que lutavam para garantir a morada em cavernas ou residências rústicas, o acesso a água e a manutenção do fogo, ainda vivemos com base nesta tríplice sustentação somente com a diferença que o fogo foi substituído pela eletricidade. A partir da conquista adequada destas condições de vida, há a necessidade de garantir a alimentação e o vestuário. Sem tentar pormenorizar as características destes quesitos de sobrevivência e muito menos detalhar em uma análise de custos, passo a assumir, que os gastos com moradia, água, eletricidade, alimentação e vestuário, são despesas mensais e fixas, no sentido de não poderem ser colocadas de lado, uma vez, que são requisitos para a manutenção da vida. Portanto, apesar de existir uma pequena margem de manobra destes custos (gastar menos água, menos luz, priorizar alimentos da época e gastar com roupas o mínimo necessário), não é possível eliminá-las do orçamento mensal.

Ainda, com um salário mínimo o certo é que a família viverá em regiões afastadas dos grandes centros urbanos e de trabalho. Desta maneira, a distância entre o local de casa e o local de trabalho deverá ser percorrida, 1) a pé; 2) transporte público; 3) de bike. A combinação entre as formas de transporte pode ser realizada de acordo com o interesse do trabalhador e considerando o que eu passo a analisar nos próximos parágrafos.

A primeira opção pode ser levada a cabo se ela não for de extremo desgaste e não significar a perda do trabalho por conta do cansaço. Se elocubrarmos o suficiente para perceber que a distância entre local de trabalho e de residência pode ultrapassar os cinco kilômetros, contando com a relação que quanto mais próximo do centro urbano maior é o custo da moradia, conseguimos chegar em um exemplo distinto. Logicamente que, para esse caso, há a preservação de uma perspectiva otimista para um local com pequenas distâncias e baixa importância econômica.  Caso o trabalhador consiga morar no limite desta distância, 5 Km, e lembrarmos que a velocidade média do ser humano é de 5 Km/h, chegamos a 2 horas como tempo médio de deslocação diária. Isso significa que durante a semana esse trabalhador caminha durante 10h somente para fazer o trajeto Residência-Trabalho-Residência. Apesar de estar exposto as condições climáticas, além de poder levar consigo equipamentos de proteção, como um guarda-chuva em tempo chuvoso, a própria arquitetura da cidade pode oferecer-lhe condições de proteção. Protegido, ele não precisa ter grandes preocupações em relação as condições que consegue chegar até o local de trabalho porque a intensidade da caminhada tomada neste texto está entre a caminhada leve e a moderada.

O uso do transporte público é a opção de quase a totalidade dos trabalhadores. Além de oferecer a proteção ao indivíduo e garantir que as condições de seu vestuário não se alterem, ao tomarmos a velocidade média de um ônibus, a opção mais comum de transporte público, de 20 Km/h, a distância de 5 Km é vencida em 15 minutos. Assim, ao invés das 10 horas a pé para o trajeto residência-trabalho-residência, utilizando o ônibus, serão 2,5 horas mensais de deslocamento.  Contudo, essa opção pode transformar-se em uma fonte de despesas mensais fixas, mesmo quando os seus custos possuem a modalidade de co-participação empresarial ou governamental (no caso do Brasil o trabalhador arca com 6% de seu salário). Para uma família com trabalhadores, a análise destes custos é real e pode se mostrar comprometedora. Ainda, é preciso perceber a qualidade dos serviços do transporte público. Se os serviços conseguem manter o cumprimento aos horários planejados e a manutenção mecânica dos transportes, torna-se uma opção segura e confiável para qualquer pessoa que os utilize. O seu uso, portanto, é proporcional a qualidade de sua oferta. Em Alemanha, Holanda, EUA, Inglaterra, França e outros países que assumem essa consciência, o transporte público é utilizado por grande parte da população e de diversas classes sociais.

Tendo a locomoção a pé como gasto de considerado tempo e o transporte público como um possível gasto de dinheiro, vejamos o uso da bicicleta. Considerando que o trabalhador não possui qualquer intenção em fazer uma corrida com os veículos e planeja chegar ao local de serviço sem a necessidade inevitável de um banho, assumo que a velocidade média de 15 Km/h é bastante factível. Assim o tempo de 20 minutos pedalando, necessários para percorrer a distância entre a residência e o trabalho, é muito menor que o gasto a pé e um pouco superior ao tempo gasto pelo ônibus. Sendo uma boa alternativa no quesito tempo, analisaremos as despesas com a bicicleta. Os custos da bicicleta estão concentrados em sua própria aquisição uma vez que a manutenção pode ser feita pelo próprio dono e não há, de partida, como prever as despesas de manutenção sem um esticar da imaginação até o determinismo. Uma rápida pesquisa na internet sobre bicicletas novas (rede Continente e rede Extra de Supermercados) demonstra que, ao considerar as mais baratas, o preço de venda pode variar entre 20% a 40% do Salário Mínimo. Tendencialmente, o percentual menor de participação no  Salário Mínimo é em Portugal e o maior, no Brasil. Para título de exemplo, como é este texto, e julgando que a tomada do percentual de 20% não afeta a proposta que aqui se trabalha, assumo esse índice como parâmetro geral. Portanto, enquanto o valor para o transporte público de um trabalhador, tanto em Portugal quanto no Brasil, gira em torno dos 6%/mês do salário mínimo, a compra de uma bicicleta compromete 20% de seu salário. Porém, para não esquecer de minha origem contábil, é preciso percebermos o comportamento das despesas no tempo. Enquanto o custo com a bicicleta ocorre um única vez em 12 meses, o do transporte público ocorre 12 vezes, uma vez que é mensal. Assim, para um salário mínimo de 724 reais a despesa com a bicicleta, em 12 meses, é de 143 reais e com o ônibus é de 521. Portanto, considerando o item custo, a bicicleta aparece como uma opção mais vantajosa que o ônibus.

Mas, por outro lado, assim como é necessário realizar uma ginástica com os números para justificar a vantagem da bicicleta sobre o ônibus a partir dos custos anuais, caminho semelhante deve ser tomado para indicar o uso da bicicleta como uma opção criativa e, acima de tudo, social. Quem, algum dia, tentou fazer o trajeto residência-trabalho-residência de bicicleta, sabe que é preciso uma verdadeira logística e infra-estrutura para garantir as suas condições de igualdade perante os colegas que utilizam outros tipos de transporte para chegar ao trabalho. Primeiramente a logística. Antes de se aventurar no transporte de bicicleta, é preciso conhecer o trajeto mais favorável e o tempo necessário para percorrê-lo. Assim, além de não se meter na guerra com os carros, correr o risco de utilizar caminhos longos ou descobrir obstáculos repentinos, a pessoa consegue organizar o seu tempo desde a hora que acorda até a de início de seu expediente. Logicamente, essa opção somente é possível para quem não tem crianças pequenas ou o/a parceiro/a assume a responsabilidade de acompanhá-las de maneira integral. Vencida a logística, o candidato ao uso da bicicleta como transporte coloca a prova a sua consciência sobre a realidade. Além de constatar que o trânsito pode ser um local que repele o seu veículo conduzido por força humana, verá que é preciso ter em seu local de trabalho, ou por perto dele: estacionamento para bicicletas e um balneário que ele possa se recompor tanto do eventual esforço físico quanto do vestuário que, por precaução, não deve ser o mesmo que utilizou para andar de bicicleta. Sem correr qualquer risco, afirmo que o candidato encontrará quase nenhum local para estacionar sua bicicleta, a não ser em postes públicos ou árvores, e muito menos empresas que possuem, elas próprias, vestuários ou algum tipo de convênio que seus trabalhadores possam usufruir. Ao constatar todas as dificuldades para levar a cabo ao que se pretende, somente com muita criatividade que o adepto ao uso da bicicleta consegue encontrar razão para continuar com essa ideia. Mesmo constatando que não existe infra-estrutura mínima para o uso da bicicleta como meio de transporte para o local de trabalho, ainda há pessoas que conseguem fazer exercícios argumentativos suficientes que podem cansar até mesmo o mais paciente ouvinte e até simpatizante da proposta.

De longe já se sabe que a realidade dos trabalhadores, principalmente no Brasil, é objeto de preocupação de parcelas muito pequenas da sociedade. Muitas vezes, até aqueles que se enquadram como trabalhadores, refutam o exercício de verem a sua realidade, colocando seus desejos em campos que não são os da melhoria da sua própria qualidade de vida. Por isso o argumento prático utilizado até aqui não chega até aos que possuem a consciência "social" do uso da bicicleta. Não adianta seguir uma linha argumentativa semelhante a construída acima porque, no Brasil, a cabeça dos militantes do uso do veículo de propulsão humana não está no trabalhador ou na melhoria da nossa sociedade, mas, sim, na consciência "global" e em redes sociais.

Fora da necessidade do trabalhador em conseguir economizar os seus recursos por meio do uso da bicicleta, em cidades como a Berlim, por exemplo, onde há uma interação entre os tipos de transporte e todos são de qualidade, o uso da bicicleta torna-se uma opção real por causa, também, da geografia. Caracterizando-se como uma cidade plana, a pessoa que utiliza a bicicleta não possui muito esforço em vencer as distâncias que desejam. O clima também favorece porque com baixas temperaturas o ciclista consegue manter a sua preocupação com a transpiração em baixa. A questão da logística depende somente de encontrar um caminho adequado para realizar o trajeto porque além de conseguir manter um nível de apresentação pessoal adequado, consegue encontrar um estacionamento para deixar a sua bicicleta com certa facilidade. Em relação a preparação da comunidade para aceitar o trânsito de bikes, há espaços específicos para esses veículos, fazendo-o parte do trânsito local. Desta maneira, não havendo maiores preocupações para melhorar as condições do transporte público e pela própria cidade estar adaptada em acolher os "bicicleteiros", militar pelo uso da bicicleta como uma alternativa ao modelo do automóvel faz todo o sentido.

É nesse alemão e em suas ideias de ajudar o social que a elite burguesa do Brasil, digo, classe média brasileira, milita no uso da bike em nossas terras. Essa utilidade da bicicleta somente faz sentido na cabeça das pessoas que se dizem "conscientes" de nossa realidade, que conhecem o que acontece fora do Brasil, que participam de um movimento mundial e que, no fundo, junto com o seu visual e seu moderno Iphone, quer mesmo é gritar: Eu sou Cult!!!! Infelizmente, são esses os mais descolados da nossa realidade. Como argumentar tal proposta se a militância pelo uso de transportes públicos parece ser o caminho mais democrático e libertador para toda a sociedade? Democrático porque ao conseguirmos implantar o transporte público com qualidade, todas as pessoas poderão usufruir do mesmo direito de ir e vir, com as mesmas condições. Ao passarmos a usar o transporte público, logo, ele torna-se nosso e, esse sentimento de posse de um bem público transfigura-se em um de pertença a comunidade, onde o bem que eu luto para melhorar a vida privada reflete no ganho público de qualquer luta onde os laços comunitários são fortes. Ao termos um transporte público de qualidade, podemos escolher não somente aquele que menos impacta no bolso mas, também, o que oferece a melhor qualidade de conforto e segurança. Com a liberdade de podermos escolher, tomamos consciência que as nossas opções no uso do bem público também impacta na melhoria individual que buscamos. Essa liberdade é muito diferente daquela em que a atenção do virtual e a satisfação pessoal na pseudoideia de apoiar o social se assentam.

Antes de nos enjaularmos em ideias importadas e que ao mais leve salutar olhar crítico demonstra que são muito difíceis de se assumir, em uma realidade completamente diferente, devemos reconhecer a nossa cidadania global a partir de mudanças locais. A frente da militância do uso da bicicleta como uma forma de diminuir a quantidade de carros no trânsito e "poluição do planeta", tangenciando o bem-estar social mundial, está a luta para (re)democratização do transporte público e melhoria de sua qualidade. É a militância para o público que impacta no privado. Nestes termos, o perfil da pessoa "Cult" e antenada com a "rede", deve ser substituída pela pessoa consciente e presente na realidade.







terça-feira, 11 de novembro de 2014

Um pouco de mudança

Eu comecei, de fato, o doutoramento neste semestre. Estou na Universidade que eu queria, com a minha família e uma boa situação financeira. Não passamos qualquer dificuldades, as crianças estão nos esportes que gostam e eu tenho o tempo que nunca tive: Tempo de estudo.

Como eu sempre trabalhei e, em alguns anos na minha vida, trabalhava em dois lugares, tudo sempre foi muito corrido e me acostumar não somente com o ritmo da cidade, Coimbra é uma cidade pequena, e deste novo trabalho deixa-me um tanto perdido. Frequentemente percebo o meu pensamento longe, em Brasília, Londres, Paris, Ottawa, São Francisco... enfim, em algum lugar que eu percebo poder estar após o doutoramento. Gosto muito de viver esta fase em que me encontro, mas o isolamento de todas as pessoas que conhecemos é muito novo e não estou acostumado. E, então, fico em um meio de campo complicado, estou em um lugar onde sei que não posso fazer muitos planos e, ao mesmo tempo, não tenho qualquer vínculo profissional de onde eu parti. 

Como não tenho muita saída, a não ser aproveitar tudo o que eu tenho hoje, as minhas escolhas sobre o que fazer são bem limitadas. Se por um lado parece fácil em fixar o pensamento de viver o hoje, por outro, há a insegurança de não saber o que vem pela frente. Também sei que essa falta de alegria em olhar para frente é um tanto de um momento deprê que me encontro. Eu tenho que encontrar, de maneira urgente, uma forma de fazer com que o dia fique mais prazeroso e iluminado para seguir. 



  

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Resumo 02: Research “in the wild” and the shaping of new social identities

RESUMO 02
Autor(as/es): Michel Callon e Vololona Rabeharisoa
Infos sobre o/a/s autor/a/s:
 Callon:http://www.csi.ensmp.fr/en/equipe/membres-d-honneur/michel-callon
 Rabeharisoa: http://www.csi.ensmp.fr/en/equipe/chercheurs/vololona-rabeharisoa
Título: Pesquisa "na selva" e na formação de novas identidades sociais

Os estudos que envolvem a relação dos cientistas e não cientistas com as pesquisas em saúde, até a pouco tempo, não tinham atenção de grande parte dos estudiosos porque 1. apesar de vários interesses, os mesmos que direcionavam as pesquisas eram, ao fim, os consumidores finais. E mesmo esses não participam de maneira igual pq somente alguns são consultados e acabam tornando-se prisioneiros de modelos criados por outros agentes econômicos. 2. As formas que as políticas são realizadas, principalmente, quando consideradas a mobilização para tecno-ciência. 

O texto tem o obejtivo de apresentar as novas formas de produção do conhecimento como uma pesquisa "na selva" onde os grupos de contestação são capazes de trabalharem cooperativamente com os cientistas na produção do conhecimento.

Dentre as formas de trato com os cientistas para a produção de conhecimento há as organizações auxiliares qye são caracterizadas pela manutenção da divisão entre experts e leigos; as Organizações de Oposição, constintuem-se como uma negação a condição de paciente sob o conhecimento científico e comunidade médica. Exemplo destas é o movimento dos implantes cocleares; e as Organizações Parceiras, que buscam construir uma paridade entre especialistas e pacientes.

Ao deparar o conhecimento entre experts e leigos, de partida, nota-se a ignorância, do segundo, em relação ao conheicmento acadêmico mas, por outro lado, percebe-se o seu grande realismo e conhecimento prático. Ao tomar esses dois tipos de conhecimento (científico e leigo), percebe-se que são complementares e, intrinsicamente, não são diferentes. Nesta base, as pesquisas podem ser colaborativas.

Assim como nas pesquisas científicas, o conhecimento produzido pelas associações, e que os autores toma a AFM como exemplo, é baseado em experimentos, instrumentos e procedimento para visizaliação, formalização, evaluação, acumulação e escrita. Contudo a pesquisa na selva superam as científicas porque além de utilizarem os mecanismos destas, não tensiona ficar isolada, desenvolvendo ações para promover a troca de relação entre pesquisadores, clínicos e pacientes. A relação dos pacientes com os médicos é de um mesmo patamar, de complementariedade.

A intereção entre especialistas do campo e especialistas do laboratório, ocorrem 1. para uma construção de identidade dos autores, seja o paciente ou o médico/pesquisador; 2. de maneira estratégica, seja para produção/início/investigação de formas de tratamento; 3. novas formas coletivas que se assentam, principalmente, na investigação.

Com o avanço das pesquisas genéticas, atualmente, há uma centralidade dos estudos com este argumento. Por exemplo, como a AFM possui os recuros do Teléthon, uma forma de responder as críticas sobre as pesquisas que desenvole para as distroficas musculares, a AFM inicia as pesquisas genéticas para outros tipos de doenças e não somente para as distrofias. Por outro lado, ao demonstrar que as doenças genéticas podem acontecer com qualquer indivíduo, as campanhas também despertam os sentimentos de solidariedade e compaixão.

Ao mesmo tempo que há a construção de uma identidade coletiva nos termos da bio-sociabilidade de Rabinow há, tb, aqueles que ficam a parte seja pela preocupação em não reduzir o problema a uma questão genética, seja pela grande medicalização existente

Resumo 01: A pesquisa em saúde nas ciências sociais e humanas: tendências contemporâneas

RESUMO 01
Autor: João Arriscado Nunes
Infos sobre o/a/s autor/a/s:  http://www.ces.uc.pt/investigadores/cv/joao_arriscado_nunes.php
Título: A pesquisa em saúde nas ciências sociais e humanas: tendências contemporâneas


Conforme o autor, a participação do cientista social na área da saúde vem, cada vez mais, tomando um lugar assertivo nas discussões realizadas sobre a saúde. Esse aumento da participação pode ser verificada por diferentes indicativos, seja pelo crescimento do número de publicações especializadas no tema, seja pela incorporação das ciências sociais e de suas contribuições da formação da pesquisa em saúde.
O projeto ITEMS foi uma iniciativa realizada no contexto europeu e identificou quatro grandes eixos temáticos da pesquisa em ciências sociais sobre a saúde: as transformações das ciências biomédicas, a participação dos usuários nos debates sobre o tema, o papel da tecnologia e da comunicação e as articulações da saúde com temas políticos e sociais. Deste, originou-se o projeto MEDUSE com o objetivo principal de explorar a participação dos novos atores sociais e coletivos na área da saúde.
A biomedicalização é definida como um processo central que possui cinco componentes: economia política no setor da saúde, ênfase em saúde (ao invés da doença), incorporação de outros saberes na medicina e a transformação dos corpos.
Os objetivos do texto são o de caracterizar os principais eixos temáticos e orientações das ciências sociais em saúde e propor uma participação dos cientistas sociais no campo da intervenção dos domínios da saúde.

Eixos e orientações de pesquisa sobre saúde nas ciências sociais

São elencados cinco eixos.

O eixo da biomedicalização atua em diversas áreas e, na verdade,fundamenta grande parte das alterações surgidas na área da saúde. Em particular a biotecnologia como uma maneira de manipulação da vida, trouxe a capacidade de redefinir os conceitos de saúde, doença,doente e intervenção médica, criando novas entidades, como: mães de aluguel, os doentes saudáveis, o conceito de morte, a correção da natureza, recuperação do conceito de raça, divisão biossocial e a criação de biobancos.
A medicina preventiva, orientada para prevenção e diagnóstico, está a ser alterada para uma de vigilância, da gestão do risco, caminhando para uma medicina regenerativa, para formulação dos medicamentos sob medida, em função do perfil genético.
A articulação da saúde para um campo de biopoder ganha, cada vez mais, maiores reforços.

A diferença entre a velha e nova saúde pública está assentada, principalmente, sobre a forma de entender a saúde no ambiente. Enquanto a nova faz uma relação das doenças que podem surgir no ambiente -contaminação da água, do ar etc. -, em uma visão da globalização, a velha estava com a atenção aos problemas para garantia das condições de vida. O alinhamento entre as duas é facilmente identificado quando os problemas da saúde envolvem um caráter de globalização. Há uma necessidade de redefinição dos saberes relacionados a intervenções da medicina na saúde e a atenção para surgimento das novas modalidade de institucionalização da vigilância em saúde(governação x democratização).

O público e o privado se confundem com as visões do direito sobre um e outro. A partir do momento que os cidadãos passam a buscar proteger suas necessidades individuais o público começa a perder espaço. Principalmente quando essa diferença recai sobre a garantia de direitos para os mais ricos. A privatização da saúde, o aumento do aparato tecnológico para o seu monitoramento, a sua domicialirização acabam por transferir para o cidadão a responsabilidade de cuidados em saúde que, a grande maioria das vezes, recai sobre as mulheres.

A participação dos cidadãos, pela ação coletiva e participação pública, na construção da saúde é realizada pelas associações, encontros e outras iniciativas que buscam criar uma resposta a demandas não formuladas pelo governo.As formas de ONGs na saúde são muito heterogêneas e com diferentes propósitos sendo, em alguns casos, regidas pela cartilha neoliberal onde os pacientes e necessitados da saúde são postos de lado.
Diante das discussões e reflexões sobre democracia participativa x representativa, a principal questão é: É possível uma saúde para todos/as?

A saúde é um direito fundamento do ser humano e portanto deve ser defendido. A definição da saúde como uma forma solidária de existência é a base para formulação de políticas e participação do pesquisador social nesse campo. A garantia a saúde é defendida de maneiras diferentes entre o norte e o sul, onde esse é uma metáfora a todas as formas de opressão e exclusão. A retirada dos indivíduos que sofrem algum tipo de discriminação da participação pública somente agrava a sua vulnerabilidade.

Para uma concepção solidária da pesquisa sobre saúde em ciências sociais e humanas
 

Na última parte do artigo, o autor argumenta que a concepção solidária diz respeito a participação do cientista social na promoção de qualquer atividade que garanta a saúde como um direito fundamental e, principalmente, a realização de ações que promovam o aparecimento de qq forma de discriminação ou exclusão do exercício desse direito.
- Produção do conhecimento biomédico em saúde;
- Denúncia a violações do direito a saúde e dos direitos humanos;
- Produção coletvia de testemunhos de privação e qualquer tipo de sofrimento;
- Reconhecimento da saúde como um direito de todos;
- Definição de formas de ação afirmativa;
- Pesquisa de maneiras participativas sobre ações de promoção e defesa da saúde;
- Promoção ou facilitação dos cidadãos no debate público;
- A reorientação da bioética e da ética médica.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Ação para Doenças Raras no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

No dia 23 de setembro de 2014, na sala 01 do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra-Portugal, sob a coordenação da prof. Dra. Sílvia Portugal e do doutorando em sociologia e bolsista da CAPES, Rogério Lima Barbosa, aconteceu o seminário Experiências e Trajetórias de Cuidados de Saúde: as Doenças Raras em Debate. Com a proposta de criar um espaço para o debate entre a academia e a comunidade, o seminário contou com a participação de cientistas, docentes, ativistas, pacientes, pais, mães e familiares de pacientes.

A abertura foi realizada pelo prof. Dr. João Arriscado Nunes. O prof. Arriscado possui vários trabalhos publicados sobre o envolvimento dos pacientes na construção de saberes e influências que exercem sobre os médicos. Atualmente, consta como um dos cientistas sociais mais influentes na área da saúde. A partir de trabalhos realizados em Portugal, Brasil e com grupos de França e Inglaterra, abordou a dificuldade dos profissionais de saúde em ouvir o paciente de maneira atenta e participativa. Citou o estudo realizado no Brasil onde, a partir da alteração da forma de atendimento dos profissionais médicos ao paciente, foi possível constatar o local e a forma de contaminação de algumas endemias regionais.

O prof. Dr. Jorge Cequeiros, professor Catedrático de Genética Médica no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e Director do Centro de Genética Preditiva e Preventiva do Instituto de Biologia Molecular e Celular, da Universidade do Porto. Apresentou a importância e o crescimento das análises sobre o sequenciamento genético para a prevenção e o acompanhamento das doenças genéticas. Também apresentou o andamento dos planos nacionais para as doenças raras na Europa. O professor é membro ativo do projeto Orphanet em português. https://pt-pt.facebook.com/Orphanet.PT

De uma perspectiva inovadora a prof. Dra. Helena Canhão, da Universidade de Lisboa, apresentou o projeto Patient Innovation, https://patient-innovation.com/. O projeto, que possui o apoio de organismos internacionais, busca conseguir junto aos cuidadores dos pacientes com doenças raras, inovações que tenham impactado na qualidade de vida dos pacientes. Um ponto interessante tangenciado pela a sua apresentação foi a relação entre o médico e o paciente. De uma pesquisa realizada com aproximadamente 500 pessoas, somente 7 deram conhecimento aos médicos sobre as inovações que realizaram para mudança na vida daqueles que cuidavam.

O prof. Dr. Luiz Oswaldo Carneiro Rodrigues, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e Diretor da Associação Mineira de Neurofibromatose(NF), realizou uma apresentação que equilibrou experiência pessoal com experiência profissional. Pai de uma pessoa com NF, sinalizou a importância dos pacientes assumirem o seu papel de serem os primeiros cuidadores de si próprios e a importância do envolvimento familiar no acompanhamento dos indivíduos.

O doutorando Rogério Lima Barbosa, apresentou parte de sua pesquisa de mestrado que foi elaborada sob forte influência de sua experiência como militante, a frente da AMAVI. Além de sinalizar a influência do poder que as indústrias farmacêuticos realizam no campo das Doenças Raras, apresentou o Modelo Utilitário do Cuidado – MUC. Segundo esse modelo, a sequência de ações para aprovação do Orphan Drug Act nos EUA e na Europa é a mesma que está em andamento não somente no Brasil mas em toda a América Latina. O MUC ainda destaca a instrumentalização de todo o campo das doenças raras para a venda do medicamento e a retirada do paciente do centro de debates sobre as doenças raras.

Com a intervenção da prof. Dra. Fátima Alvez, a primeira parte do seminário foi encerrada com o reforço sobre o poder do Mercado sobre o campo e o debate sobre a importância da informação e, também, da não informação. Notadamente atentos ao que se pode construir a partir das informações sobre o sequenciamento genético dos indivíduos e da própria família.

A segunda parte do seminário foi dedicada ao debate. Iniciada pela intervenção do Sr. João Veloso, pai de uma criança com Síndrome de Reth. O Sr. João, salientou a forma como os pais acabam por tornarem-se especialistas nas doenças e, muitas vezes, orientam os próprios médicos que acompanham as suas crianças. Por intermédio do Sr. João, houve a apresentação da música elaborada pelo pai de uma criança com autismo.

Após o levantamento das questões apresentadas pelos presentes e as considerações finais do pesquisadores, o seminário foi encerrado por volta das 19:00hs.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O treinamento

O seminário chegando e eu ansioso para fechar logo a minha apresentação. Passam muitas ideias pela cabeça mas ainda não consegui fechar a forma de abordagem de minha parte. O certo é que somente estarei menos nervoso após a aprovação da minha orientadora, rs... 

A última conversa que tivemos, ficou muito claro que preciso melhorar os meus textos. Não na qualidade das informações mas como elas são passadas. No início, eu embaralhava muito o que eu queria dizer. Colocava um tanto de informações pelo texto que, muitas vezes, as ideias não concluíam. Era uma ânsia muito grande em mostrar que eu tinha consciência dos assuntos que circundava a minha ideia principal. Com o tempo, entendi que isso não é preciso ser feito o tempo inteiro porque, simplesmente, um artigo é dedicado a um assunto específico e objetivo. Essa parte melhorou um pouco mas, ainda, quando realizou a primeira leitura de revisão, percebo que há muito melhorar.

A parte que estou agora é a de tentar afinar a confusão de ideias e organizar as linhas. Partir de uma ideia que tenha início, meio e fim. E que o fim não comece pelo início, ;o)

Como muita gente, ao receber as críticas de minha orientadora (que eu tenho a sorte de, praticamente, pegar em minha mão para ensinar o caminho da academia), fiquei um tanto desanimado porque o nosso texto não deixa de ser um caso de amor. Vc fica namorando um tema por um tempo, depois dá algumas investidas para ver brechas e confirmar ideias, começa a rabiscar, briga, volta, briga e volta novamente com as ideias que surgem no papel e, no final, tem a paciência de começar tudo de novo para ver se ficou do jeito que pensava. Então, quando há a crítica, precisamos ter calma para ouvir. Caso contrário ou ficamos irritados e não escutamos ou começamos achar que somos muito ruins.

A calma ajuda a trazer o motivo que nos leva a ter determinado estilo de escrita. No meu caso, a minha vida inteira trabalhei com projetos. Aprendi que os melhores projetos para conquistar a simpatia ou divulgar os seus resultados eram aqueles que possuíam as ideias principais logo no início. Era a forma que encontrava de cativar o possível interessado logo no início e, quem sabe, ele estava disposto a doar um tanto do seu tempo para ler o restante do meu trabalho.  Mas para a academia, o modelo já é outro. Há a sedução do leitor para que ele possa seguir o raciocínio do autor. Alguns, conseguem isso com maestria que, ao fim de seus textos, parece que demos um passo gigante de onde estávamos. Outros, nem tanto(quase a totalidade). Lógico que a percepção é individual. Os melhores autores são aqueles que "se encaixam no nosso ritmo de pensar."


Bem, e como estou no treinamento para mudar os meus textos e o tempo está curto, não prosseguirei com a minha ideia inicial que era pensar no como o Facebook, Twitter, Youtube e outros recursos no gênero treinam as pessoas a terem leituras superficiais, limitadas e a serem, também, supérfluas. 

Fica para a próxima. ;))

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

1º Seminário em terras lusas

No próximo dia 23/09, na Univ. de Coimbra, terá espaço o primeiro seminário sobre DRs que organizo. Será no CES a partir de 14:30. A sensação de organizar e participar é muito boa mas, confesso, será uma experiência totalmente nova. É como se fosse um dos últimos degraus que comecei a subir em 2010. A academia é insossa e árida para os sentimentos e, eu deverei aprender com isso. Todas as infos vc pode encontrar em http://www.ces.uc.pt/eventos/index.php?id=10292&id_lingua=1&pag=10294


domingo, 20 de julho de 2014

Não me tirem a cidadania!!

Bem, ando estudando bastante e conhecendo algumas coisas que, no fim, é um conhecer de mim mesmo. Como uma das prof. que foi peça fundamental na minha decisão de seguir a academia disse-me: Os estudos abrem os nossos horizontes.

Mas a minha distância presencial do Brasil é suprida pelo uso da internet e por meio de pessoas que ainda tenho o contato. Por isso, ainda sinto-me parte de um movimento de pessoas que buscam melhorar as próprias vidas por meio de uma saúde de qualidade. Como todo movimento, há uma parte dele que tenta não somente agir contra o princípio básico das associações, que é o apartidarismo, como, maquinando com os próprios botões, tenta impor uma visão para toda a gente pelo falso lacre da academia.

Será que se pode levar a sério uma associação que realiza suas atividades em uma região específica e totalmente partidária? Que utiliza de seus contatos políticos para constranger toda uma comunidade? Que diz ajudar as pessoas com doenças raras por meio de propostas de lei que se sabe não há qualquer fundamento? Ainda mais que essas propostas tem origem exclusivamente em um partido? E o pior, imputa uma identidade à pessoas que querem, antes de tudo, cidadania?

A primeira vez que ouvi e fui chamado de RARO, fiquei muito constrangido. Foi em uma audiência pública organizada pela AMAVI e a época do Congresso Iberoamericano de Doenças Raras. Como eu tenho a plena consciência que muitas de minhas posições não são compartilhadas, resignei-me em ficar calado. Contudo, as pessoas que da minha família e outras que ouviram a mesma situação, conversaram comigo que se sentiram tanto ou mais incomodados. Mas porquê?

Impingir o RARO às pessoas com doenças raras é sinalizar que antes do indivíduo está a doença. Porque é a doença que a faz rara. Ao mesmo tempo, é fazer da famigerada palavra a identidade da pessoa. Esse termo deve ser combatido por todos nós. Não devemos ficar calados diante de pessoas que lutam para nos oprimir seja individualmente ou em grupo. O silêncio diante do partidarismo que se escancara a nossa frente somente é possível porque não retomamos na mesma força e intensidade as insanidades que nos são ditas ou impostas.

Outro motivo para o combate é só lembrar dos movimentos dos surdos e dos deficientes que conseguiram não fazer de sua deficiência a sua limitação. A luta desses grupos contra as tentativas de segregação e limitação pelo uso dos termos, é amplamente divulgada e facilmente conhecida.

Certamente, por fim, devemos ficar atentos com as pessoas que utilizam a academia para esconder as suas reais intenções. Hoje, como a grande maioria dos intelectuais que lidam com os Movimentos Sociais sabe que a resposta está nos próprios movimentos e não nos "intelectuais".

Emfim, apesar de estar na academia, tento não deixar a ansiedade do militante apagar. Por isso, deixo esse texto torto, de muitas ideias e, às vezes, sem conclusões, da forma que está. A sua bagunça é uma reação e, também, demonstração da ebulição de sentimentos de raiva e impaciência quando vemos que somos tratados com desrespeito e com pena. Eu não quero pena, minha familia não precisa disto e muito menos todas as pessoas que conheci até hoje, pelo movimento social, estão longe de serem merecedores de pena. Queremos somente a nossa identidade, sem pechas e codinomes. Não aceito ser tratado nada menos como cidadão. Então por isso, toda a ebulição de sentimento que me vem ao peito e a mente pode ser resumida em uma única frase:


NÃO ME TIREM A MINHA CIDADANIA!!!

domingo, 22 de junho de 2014

Studying group


Well, it is not very easy. For meuFor those who always had the time fully satisfied with work and study, separately, to transform the study in work or the reverse, is somewhat complicated.

The fase where I am acting in this moment is that, reading, reading and reading. It is very hard!  While there is a feeling of having a lot to be done, since a reading leads to another and another .... this step, where I am building my background knowledge is very important and will define me as a doctoral student.

But, at the same time, find on the books our particular answers is not easy or enough.  I have realized that many times, when I am having a few days of intense reading, the best thing is to do is go around my "world" and to talk with people. These dialogs while is very good to know different thoughts, also help me to understand the reasoning of my own party. At the same time give me a clue how far I am going with my readings,  proportional with my understanding about the basis of my collegue's argument. The exchange of ideas, even for a few minutes is very good and is a part of the construction of reasoning. I am thinking in that a study group is very important for a student, because it helps further the opportunity for discussion on the same topic from similar points of view.

It is therefore this path of trying to build a study group that I find myself. If you want to join it, please let me know.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O problema é... Nosso!

Há alguns posts comentei que não era possível fazer muita comparação entre Portugal e Brasil. A razão da afirmativa é pq enquanto Coimbra é uma cidade com 200 mil habitantes, Brasília tem 3 milhões. E, mesmo assim, pelo menos no plano piloto, acho a minha cidade mais limpa. Lembrando de meu amigo Fumaça, Brasília é uma bolha. Por fim, a comparação não é possível pq, simplesmente, não há como falar do Brasil a partir de Brasília.

Em realidades muito distintas é difícil fazer comparações, ainda mais quando não entendemos o que se passa para vermos os objetos comparáveis. Particularmente, o que chama a minha atenção é ver a forma de agir da comunidade e suas relações. Acho bem legal viver situações de contato pq temos a oportunidade de sair um pouco dos objetos e concentrarmo-nos nas pessoas. São elas que importam e fazem um grupo, uma comunidade, a sociedade. Aí conseguimos chegar em algum ponto de comparação. E, aqui, é curioso como nós, brasileiros, (re)agimos. Logicamente que não vou debulhar ladainha alguma pq de complexo do vira-lata já sofremos todos. Quero, somente, divulgar o link de algo que achei interessante. Problemas existem em todos os lugares, mas O problema é como nós reagimos diante deles.

http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2014/06/13/gringos-provam-que-os-problemas-nao-sao-so-no-brasil-e-reclamam-tambem.htm

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Divulgação de mídia

Conheci o Diário do Centro do Mundo a época das críticas a Ney Matogrosso. A forma que eles colocaram as afirmações do cantor chamou-me a atenção. Para cada afirmação eles indicavam se era verdade ou mentira, seguindo os dados de pesquisas que conseguiram. Ainda houve aquelas que se abstiveram por não conseguirem dados suficientes para análise. Pareceu-me algo mais próximo de uma crítica convincente e menos partidária.

Estão com alguns links de reportagens bem interessantes nesta semana. A divulgação do texto de um correspondente da BBC sobre o jantar que compartilhou com a presidente é interessante. Vejam em: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-relato-do-correspondente-da-bbc-sobre-seu-encontro-com-dilma/


terça-feira, 3 de junho de 2014

2014 como a vitória tardia da luta armada no Brasil

Na última semana havia um encontro, com o prof. Boaventura, sobre a questão: Brasil e Portugal, como nos lemos e como nos vemos?

Particularmente, fiquei bem interessado. Contudo, frustrei-me porque o prof. não pôde comparecer e as questões ficaram restritas a visão Brasil-Portugal e, também, como potencializamos as mazelas de nossos colonizadores.

Por outro lado, ontem, minha expectativa foi alcançada. Houve mais de uma apresentação sobre o Brasil. O mais interessante é perceber uma separação muito grande entre aqueles que visitam o nosso país, consideram a sua complexidade e aqueles que se grudam a mensagens jornalísticas, caindo no cadafalso de reduzir a realidade brasileira ao que se percebe em jornais e com uma comparação direta, e errônea, entre o Brasil e o país que vive.

Antes de tudo, é preciso esclarecer que não sofro de qualquer mal e estou totalmente sóbrio, por isso, de forma alguma eu defendo que nosso país é uma maravilha e tudo funciona na medida do possível. Mas, por outro lado, é preciso relembrarmos que em um pouco mais de 500 anos de história, com a presidente Dilma, somente três presidentes foram eleitos democraticamente pelo povo e conseguem terminar o seu mandato: um sociólogo, um operário e uma mulher ex-militante da guerrilha. Daí já é uma perspectiva bem interessante para pensar sobre o que é a democracia para nós.

Também é preciso lembra que os estudos sobre o ano de 2014, a copa e a eleição merecem cuidado em conclusões rápidas e, portanto, rasteiras. Não há como realizar uma construção racional sobre a copa sem considerar que 2014 é o ano do 50° aniversário do golpe militar e que o governo possui projetos para apresentar à sociedade os arquivos militares daquela época. Sem partir para a teoria da conspiração, somente levanto a seguinte questão: Será que os militares e a direita não se preocupam com a triangulação de sucesso do governo Dilma vitória para este ano, na organização, daquilo que ela chama, da Copa das Copas; vitória da seleção brasileira na competição e a vitória em sua reeleição? Será que isso realmente passa despercebido por eles ou somente em imaginar a combinação desses fatores, temem a força que o governo pode conseguir neste ano e, principalmente, significar, definitivamente, a vitória tardia da luta armada no Brasil?

E, por último, a influência da mídia. É evidente a influência da mídia em todo o processo contra a copa. As estratégias das mídias sociais são conhecidas mas as proposições, se existem, não são comunicadas. Assim como não há o TUDO está bom, não pode haver o TUDO está ruim. Também devemos lembrar de duas coisas. 1. como as próprias forças "militares" (se lembram da questão do parágrafo anterior?) articulam-se para fazerem parte do "movimento" de rua como infiltrados ou promotores das ações. 2. Não devemos esquecer que a mesma mídia (Globo, grupo Abril e Cia) que esteve presente não somente durante a ditadura, quando manipulava a informação para massa não conhecer as atrocidades vividas no Brasil; também, estava ativa no impeachment de Collor (ou não se lembram das várias discussões que houve o dito "O povo quer o que a Globo quer"?; incita as manifestações de hoje.

Em 2014, ainda vivemos o 1964. De uma lado temos a mídia e os militares, de mãos dadas como naquela época, e do outro, não uma instituição, mas a mulher que eles não assassinaram quando tinham a oportunidade. Será que, realmente, eles não consideram essa relação?

No fundo, não me importo muito com a questão por parte deles porque sei a resposta. Mas será que nós vemos isso?

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Jornadas Luso-Francesas de Ciências Sociais

 



Bem, cá estou eu, na sala Keynes da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, para o encontro das jornadas Luso-Francesas de Ciências Sociais. É um evento de parceria entre a UC e a Universidade de Bordeux.

Além de ser um momento de troca de conhecimento entre os alunos e os professores de ambas as universidades, será um momento de partilha e construção da pesquisa que os alunos do doutoramento estão a desenvolver.

Particularmente, a minha participação será no período da tarde com o tema: Pele de Cordeiro? Associativismo e Mercado na produção do cuidado para doenças raras. Confesso, que espero conseguir algumas críticas ao trabalho. Se isso acontecer é porque ele levantou, pelo menos, algum interesse dos responsáveis por sua leitura: Prof. Elísio Estanque - UC e Rozen Nakanabo-Diallo - Sciences Po Bordeaux.

Se em uma palestra na FEUC, um prof. pesquisador da Oswaldo Cruz, com vários títulos no currículo, abriu a sua palestra para dizer do seu nervosismo de estar em Coimbra, imagine eu? Brasiliensizinho, que começou a vida acadêmica perto dos 40 anos? Bem, pelo menos, tentarei fazer cara como se fosse a coisa mais normal do mundo, ;))

Então, vou lá! Vai começar.

Grande abraço!

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Viver sem agrotóxicos

Aproveitando o post anterior. Não é de romance que vivemos, mas de luta e mobilização.

Por uma vida sem agrotóxicos

https://www.youtube.com/watch?v=fyvoKljtvG4

Visão romântica?

O interessante das aulas do doutoramento é podermos encontrar, mesmo dentro do curso de sociologia, visões muito diferentes e um tanto carregada de preconceito e estigmatismo. Em uma das aulas que frequento há uma intensa discussão sobre a necessidade de haver a construção conjunta do conhecimento entre a academia e a população. Na verdade, a posição do acadêmico que "ouve" as demandas do público é colocada em questionamento uma vez que esse ouvir, muitas vezes, é somente uma tentativa de confirmação das suspeitas iniciais do trabalho de pesquisa do investigador. Mesmo depois de quase dois meses de aula percebe-se que não há o avanço de algumas discussões onde as pessoas firmam o seu posicionamento, por exemplo, na crítica sobre a participação dos mediadores na construção democrática.

Ora, o princípio é que o ser humano, por sua própria natureza, não tem como manter uma posição neutra, por mais que se tente. Desta maneira, no papel da mediação sempre terá a intenção do mediador. Esse é um fato consumado e, acredito, não haver discussão. Contudo, para um militante que virou acadêmico, é difícil ouvir uma critica generalizada sobre o papel do mediador como se o sujeito estivesse pronto para realizar a manipulação da público, sempre para o lado do mais forte. Essa visão é um tanto errônea uma vez que, de maneira clara, ainda possui o preconceito de não ouvir a base e os movimentos sociais. Para falar sobre o papel da mediação é preciso perceber os diferentes contextos. A visão que existe os profissionais da mediação ou os mediadores que possuem um fim específico, logicamente, não está longe da verdade quando pensamos nos processos institucionais da saúde ou do orçamento participativo, ainda mais quando as associações civis que participam destes ambientes possuem a consciência do envolvimento político e, algumas, inclusive, distanciam-se destas construções por acreditarem que a ação local é mais efetiva.

Porém, essa generalização fere a grande maioria das pessoas que buscam a melhoria para sua comunidade, às vezes, com ações individuais. Os líderes de bairro, representantes de comunidade, de associações, vizinhança etc, em seu início, possuem a intenção de representar aqueles que convivem com uma realidade muito próxima da que ele próprio vivencia. Sem institucionalismo, as pessoas são livres para seguirem o que acreditam.

A crítica para o movimento social também dirige-se à academia, quando promulga-se que os estudos sobre a participação social são muito romanceados. Sem deixar o gelado da fúria que enche o coração chegar até as palavras com afirmações deste tipo, resigno-me somente em pensar: Será que essa pessoa, um doutorando, compreende que não existe romance no movimento social? Quando lemos os textos na linha do engajamento social e encontramos palavras como liberdade, emancipação, trincheiras, luta e outras do tipo, seguramente, não é de um romance que estamos falando. Pessoas que possuem a experiência no movimento social a partir da tela do computador, não conseguem entender o fervor de uma discussão entre os próprios militantes e a ginga que é preciso conseguir para ficar ao ombro de pessoas que representam o governo e grandes instituições. Não é de romance que estamos falando e muito menos os textos são para romancistas ou ingênuos. Os textos são o mais próximo do que um militante pode encontrar de incentivo e certa orientação. São portanto, visões de incentivo e coragem.

Ao mesmo tempo, como uma boa forma de contar o passado e a limitação causada pela relação TEMPO x AÇÃO, as palavras contadas sobre um estudo com a ação social pode não serem tão verídicas quando publicadas, mesmo poucos meses depois. O que é preciso decidir é o quão velhas serão elas serão. Como na visão do prof. Boaventura, o militante acadêmico não pode deixar que as ações de campo sejam jornais velhos.

Seguimos em frente, com os textos que, antes de tudo, representam a CORAGEM do movimento social!

domingo, 25 de maio de 2014

Facebook desativado (por enquanto)

Seguindo a proposta do último post, fiquei atento ao sentimento que move as minhas relações. Percebi um conflito muito grande entre o ganhar x perdemos. O ganhar é significativo para conseguir ir adiante com a minha família em uma nova situação, novo país, nova cultura, enfim, novo tudo. Parte de um princípio de proteção. Contudo esse sentimento é parte da construção que foi a minha vida e posso entrar na armadilha que nós criamos citada no antigo post. Não tenho certeza sobre a sua possibilidade de acolher a minha família na perspectiva que eu ganho. Porque é muito cansativo, pensar durante todo o tempo, que eu devo ganhar porque, da mesma forma, também penso que alguém quer ganhar sobre mim. Desta maneira, o estado de alerta que eu crio para poder não só ganhar mas, também, proteger-me de algo que eu construí, gera cansaço e solidão. Percebida a dialética inerente ao ganhar x perder, abro o caminho para uma reconstrução do ser.

O primeiro passo, foi desativar a minha conta no Facebook. Há algum tempo ando pensando sobre o pq eu estar no Facebook. Bem, de início, a minha conta do FB tinha somente um objetivo: Divulgar as ações da AMAVI para o maior público possível. Foi bom e conseguimos ótimos resultados. Mas acontece que, aos poucos, fiquei viciado em ter que acessar o FB frequentemente. Mas o pq eu acessava o FB? Para ver o que as outras pessoas andavam fazendo. Não acessava para procurar informação, mas para ver as postagens das pessoas que acompanho. Vi-me na ansiedade de acessar o FB uma, duas, três ou quatro vezes ao dia. Para quê? buscar informação? conseguir novas perspectivas? não, somente para, como minha avó diria, vigiar a vida dos outros e fofocar. Assim, por não conseguir ver algo de bom que o FB( Fofoca's Booking) pode proporcionar-me no momento, pelo incômodo de ver como as pessoas se expõe na rede, pela campanha política rasteira, por acreditar que podemos continuar a alcançar as pessoas por meios que se distanciam do FB e, principalmente, por não conseguir ver qualquer sentido naquilo, desativei a conta.

Bem, seguirei para a crise de abstinência que está por vir, ;o))

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Participe de um teste individual

A partir de nossas experiências conseguimos construir um parâmetro para vivermos. Mas o que fazer quando precisamos preocupar-nos, quase na totalidade, com a necessidade de apenas sobreviver?

As atividades que realizamos para garantir a nossa própria sobrevivência e de nossa família acabam por estrangular a necessidade de olharmos para nossa vida de maneira crítica e construtiva. As horas que precisamos dedicar para garantir a alimentação, a educação e a saúde são tão extenuantes que passamos a ser opressores de nós mesmos.

A opressão tanto ocorre conosco e em nós, como com os outros e para os outros. É claro que toda a gente possui um modelo de vida. Mas quando esse modelo restringe-se ao fator do ter e consumir, criamos a perversidade de levar para as nossas relações as ideias do ganhar e ter. Se procuramos esses últimos para nós, também buscamos encontrar a sua oposição que é o perder. Esse modelo, do ganhar e ter em oposição ao perder, possui sentido quando encontramos de quem ganhar e ter. O ganhar, neste caso, é no sentido de conseguir vantagem em qualquer situação onde o sentimento de satisfação individual é presente. Para que essa satisfação aconteça, busca-se um modelo onde é possível colocar toda essa engrenagem e fazer com que ela realmente possa vir a cabo. E as relações baseadas no consumo é o melhor modelo porque se consegue a lógica acaba materializando-se no dinheiro.

Criamos a impressão de conseguirmos medir as coisas de acordo com a quantidade de dinheiro envolvida. Assim, as nossas relações são baseadas no mesmo sentido e, ao fim e ao cabo, o indivíduo possui o seu "valor mensurável." Acentuar as nossas relações no dinheiro e na lógica do consumo é promover a diferença de tratamento que existe entre o conjunto de pessoas. Faça um breve experimento e preste atenção em seus sentimentos e sua forma de agir com as pessoas e tente perceber como é o tratamento com o status. Somente não repita que vc trata toda gente igual, ok?

O ganhar e ter individual, para a comunidade, encontra a sua oposição somente no PERDEMOS.


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