segunda-feira, 2 de junho de 2014

Jornadas Luso-Francesas de Ciências Sociais

 



Bem, cá estou eu, na sala Keynes da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, para o encontro das jornadas Luso-Francesas de Ciências Sociais. É um evento de parceria entre a UC e a Universidade de Bordeux.

Além de ser um momento de troca de conhecimento entre os alunos e os professores de ambas as universidades, será um momento de partilha e construção da pesquisa que os alunos do doutoramento estão a desenvolver.

Particularmente, a minha participação será no período da tarde com o tema: Pele de Cordeiro? Associativismo e Mercado na produção do cuidado para doenças raras. Confesso, que espero conseguir algumas críticas ao trabalho. Se isso acontecer é porque ele levantou, pelo menos, algum interesse dos responsáveis por sua leitura: Prof. Elísio Estanque - UC e Rozen Nakanabo-Diallo - Sciences Po Bordeaux.

Se em uma palestra na FEUC, um prof. pesquisador da Oswaldo Cruz, com vários títulos no currículo, abriu a sua palestra para dizer do seu nervosismo de estar em Coimbra, imagine eu? Brasiliensizinho, que começou a vida acadêmica perto dos 40 anos? Bem, pelo menos, tentarei fazer cara como se fosse a coisa mais normal do mundo, ;))

Então, vou lá! Vai começar.

Grande abraço!

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Viver sem agrotóxicos

Aproveitando o post anterior. Não é de romance que vivemos, mas de luta e mobilização.

Por uma vida sem agrotóxicos

https://www.youtube.com/watch?v=fyvoKljtvG4

Visão romântica?

O interessante das aulas do doutoramento é podermos encontrar, mesmo dentro do curso de sociologia, visões muito diferentes e um tanto carregada de preconceito e estigmatismo. Em uma das aulas que frequento há uma intensa discussão sobre a necessidade de haver a construção conjunta do conhecimento entre a academia e a população. Na verdade, a posição do acadêmico que "ouve" as demandas do público é colocada em questionamento uma vez que esse ouvir, muitas vezes, é somente uma tentativa de confirmação das suspeitas iniciais do trabalho de pesquisa do investigador. Mesmo depois de quase dois meses de aula percebe-se que não há o avanço de algumas discussões onde as pessoas firmam o seu posicionamento, por exemplo, na crítica sobre a participação dos mediadores na construção democrática.

Ora, o princípio é que o ser humano, por sua própria natureza, não tem como manter uma posição neutra, por mais que se tente. Desta maneira, no papel da mediação sempre terá a intenção do mediador. Esse é um fato consumado e, acredito, não haver discussão. Contudo, para um militante que virou acadêmico, é difícil ouvir uma critica generalizada sobre o papel do mediador como se o sujeito estivesse pronto para realizar a manipulação da público, sempre para o lado do mais forte. Essa visão é um tanto errônea uma vez que, de maneira clara, ainda possui o preconceito de não ouvir a base e os movimentos sociais. Para falar sobre o papel da mediação é preciso perceber os diferentes contextos. A visão que existe os profissionais da mediação ou os mediadores que possuem um fim específico, logicamente, não está longe da verdade quando pensamos nos processos institucionais da saúde ou do orçamento participativo, ainda mais quando as associações civis que participam destes ambientes possuem a consciência do envolvimento político e, algumas, inclusive, distanciam-se destas construções por acreditarem que a ação local é mais efetiva.

Porém, essa generalização fere a grande maioria das pessoas que buscam a melhoria para sua comunidade, às vezes, com ações individuais. Os líderes de bairro, representantes de comunidade, de associações, vizinhança etc, em seu início, possuem a intenção de representar aqueles que convivem com uma realidade muito próxima da que ele próprio vivencia. Sem institucionalismo, as pessoas são livres para seguirem o que acreditam.

A crítica para o movimento social também dirige-se à academia, quando promulga-se que os estudos sobre a participação social são muito romanceados. Sem deixar o gelado da fúria que enche o coração chegar até as palavras com afirmações deste tipo, resigno-me somente em pensar: Será que essa pessoa, um doutorando, compreende que não existe romance no movimento social? Quando lemos os textos na linha do engajamento social e encontramos palavras como liberdade, emancipação, trincheiras, luta e outras do tipo, seguramente, não é de um romance que estamos falando. Pessoas que possuem a experiência no movimento social a partir da tela do computador, não conseguem entender o fervor de uma discussão entre os próprios militantes e a ginga que é preciso conseguir para ficar ao ombro de pessoas que representam o governo e grandes instituições. Não é de romance que estamos falando e muito menos os textos são para romancistas ou ingênuos. Os textos são o mais próximo do que um militante pode encontrar de incentivo e certa orientação. São portanto, visões de incentivo e coragem.

Ao mesmo tempo, como uma boa forma de contar o passado e a limitação causada pela relação TEMPO x AÇÃO, as palavras contadas sobre um estudo com a ação social pode não serem tão verídicas quando publicadas, mesmo poucos meses depois. O que é preciso decidir é o quão velhas serão elas serão. Como na visão do prof. Boaventura, o militante acadêmico não pode deixar que as ações de campo sejam jornais velhos.

Seguimos em frente, com os textos que, antes de tudo, representam a CORAGEM do movimento social!

domingo, 25 de maio de 2014

Facebook desativado (por enquanto)

Seguindo a proposta do último post, fiquei atento ao sentimento que move as minhas relações. Percebi um conflito muito grande entre o ganhar x perdemos. O ganhar é significativo para conseguir ir adiante com a minha família em uma nova situação, novo país, nova cultura, enfim, novo tudo. Parte de um princípio de proteção. Contudo esse sentimento é parte da construção que foi a minha vida e posso entrar na armadilha que nós criamos citada no antigo post. Não tenho certeza sobre a sua possibilidade de acolher a minha família na perspectiva que eu ganho. Porque é muito cansativo, pensar durante todo o tempo, que eu devo ganhar porque, da mesma forma, também penso que alguém quer ganhar sobre mim. Desta maneira, o estado de alerta que eu crio para poder não só ganhar mas, também, proteger-me de algo que eu construí, gera cansaço e solidão. Percebida a dialética inerente ao ganhar x perder, abro o caminho para uma reconstrução do ser.

O primeiro passo, foi desativar a minha conta no Facebook. Há algum tempo ando pensando sobre o pq eu estar no Facebook. Bem, de início, a minha conta do FB tinha somente um objetivo: Divulgar as ações da AMAVI para o maior público possível. Foi bom e conseguimos ótimos resultados. Mas acontece que, aos poucos, fiquei viciado em ter que acessar o FB frequentemente. Mas o pq eu acessava o FB? Para ver o que as outras pessoas andavam fazendo. Não acessava para procurar informação, mas para ver as postagens das pessoas que acompanho. Vi-me na ansiedade de acessar o FB uma, duas, três ou quatro vezes ao dia. Para quê? buscar informação? conseguir novas perspectivas? não, somente para, como minha avó diria, vigiar a vida dos outros e fofocar. Assim, por não conseguir ver algo de bom que o FB( Fofoca's Booking) pode proporcionar-me no momento, pelo incômodo de ver como as pessoas se expõe na rede, pela campanha política rasteira, por acreditar que podemos continuar a alcançar as pessoas por meios que se distanciam do FB e, principalmente, por não conseguir ver qualquer sentido naquilo, desativei a conta.

Bem, seguirei para a crise de abstinência que está por vir, ;o))

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Participe de um teste individual

A partir de nossas experiências conseguimos construir um parâmetro para vivermos. Mas o que fazer quando precisamos preocupar-nos, quase na totalidade, com a necessidade de apenas sobreviver?

As atividades que realizamos para garantir a nossa própria sobrevivência e de nossa família acabam por estrangular a necessidade de olharmos para nossa vida de maneira crítica e construtiva. As horas que precisamos dedicar para garantir a alimentação, a educação e a saúde são tão extenuantes que passamos a ser opressores de nós mesmos.

A opressão tanto ocorre conosco e em nós, como com os outros e para os outros. É claro que toda a gente possui um modelo de vida. Mas quando esse modelo restringe-se ao fator do ter e consumir, criamos a perversidade de levar para as nossas relações as ideias do ganhar e ter. Se procuramos esses últimos para nós, também buscamos encontrar a sua oposição que é o perder. Esse modelo, do ganhar e ter em oposição ao perder, possui sentido quando encontramos de quem ganhar e ter. O ganhar, neste caso, é no sentido de conseguir vantagem em qualquer situação onde o sentimento de satisfação individual é presente. Para que essa satisfação aconteça, busca-se um modelo onde é possível colocar toda essa engrenagem e fazer com que ela realmente possa vir a cabo. E as relações baseadas no consumo é o melhor modelo porque se consegue a lógica acaba materializando-se no dinheiro.

Criamos a impressão de conseguirmos medir as coisas de acordo com a quantidade de dinheiro envolvida. Assim, as nossas relações são baseadas no mesmo sentido e, ao fim e ao cabo, o indivíduo possui o seu "valor mensurável." Acentuar as nossas relações no dinheiro e na lógica do consumo é promover a diferença de tratamento que existe entre o conjunto de pessoas. Faça um breve experimento e preste atenção em seus sentimentos e sua forma de agir com as pessoas e tente perceber como é o tratamento com o status. Somente não repita que vc trata toda gente igual, ok?

O ganhar e ter individual, para a comunidade, encontra a sua oposição somente no PERDEMOS.


segunda-feira, 28 de abril de 2014

Ruminando

Ultimamente está bem difícil seguir com a minha agenda de estudos. Ainda não consegui criar um ritmo. Mas isso não quer dizer que a cabeça está vazia. Pelo contrário, além do peso em pensar que não consigo o tempo para estudar, perco-me no conteúdo de textos que leio aqui e ali.

Um dos textos falava sobre a construção do SUS. É interessante e a construção do SUS foi sensacional. Mas penso que o fazer foi e é muito diferente do pensado. O que se pensou evitar, hoje, é a rotina. E o que buscamos abraçar está longe da realidade.

O serviço público de saúde é para os pobres. Digo, o serviço de atendimento é para os pobres. Porque os serviços mais complexos e que exigem equipamentos modernos são para "todos/as". Entre aspas é somente para sinalizar que a pessoa que possui dinheiro, assim como nega o atendimento básico no SUS, opta por utilizá-lo em momentos mais críticos. Mas o pobre sofre dos dois lados. Primeiro com o atendimento precário que possui e segundo, quando precisa de serviços complexos, perde o lugar para o amigo ou o conhecido de alguém.

A falsa ideia que incutiram em nós e, muitas vezes, replicamos que o que é de graça é ruim é errada. Nada é de graça. Usamos os serviços pq pagamos pelos nossos impostos. Deixamos de comprar algo ou perdemos o que não queríamos perder por causa dos impostos. É isso que devemos acreditar para compartilhar. Assim como o pobre que recebe um mal atendimento deve reclamar pelo serviço de má qualidade, as pessoas que fazem parte da rede de atendimento de saúde devem ter a consciência da obrigatoriedade de realizar um bom serviço por duas vias. Uma que é paga para estar ali e outra é que igual a quem será atendido, tb paga os impostos por um serviço público de qualidade.

Enquanto o atendimento do SUS for para os pobres, não somente financeiramente, mas pobres de pensamento crítico, será o horror de atendimento que conhecemos. O pensamento crítico é fortalecido pela educação. E, em uma linha semelhante, é por isso que o Sen. Cristovam pensou na proposta de exigir que filhos/as de servidores públicos sejam atendidos em escola públicas. Ao fim e ao cabo, é o pensamento que o Estado que possui condições de fornecer altos salários e boas condições de vida é o mesmo que tem a obrigação de oferecer uma educação de qualidade.

Essas ideias emergem da leitura do texto que falei acima. Mas não estão completas e, muito menos, terminadas. Estou apenas ruminando e deixando-as andar livres na cabeça porque uma hora aparece o click ou estalo que fecha todo o raciocínio e, finalmente, há uma ideia concreta.

Até!

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Seja um agente e não um papagaio

Algumas coisas sempre causam-me surpresa em Coimbra. Uma delas é o cuidado com as crianças que realmente me faz pensar no sentido de comunidade, que é diferente do que eu experimentava.

Eu gosto de deixar as crianças o mais a vontade possível, por isso, é comum eles andarem um pouco afastado de nós e, aqui, já andam sozinhas de ônibus e voltam para casa a pé. O que me dá a oportunidade de vivenciar algumas situações interessantes.

Um dia, com o mais velho a andar de skate a minha frente, uma senhora vendedora de flores em frente a igreja que frequentamos fala para ele ter cuidado para não ir até a rua porque passa muito carro. Ao passar por ela, ouço o comentário de sua amiga que estava perto:

- O miúdo está sozinho?

- Não, deixe estar, o pai dele é esse aí, eles moram cá embaixo.

Além de perceber a preocupação em saber se ele estava sozinho, o que pode ser normal, a senhora, que nunca conversei com ela, sabia que eu era o seu pai, onde morávamos e, mesmo assim, mesmo eu por perto, viu-se no direito de falar para o Bernardo tomar cuidado.

As conversas com eles são muito frequentes. Quando estamos separados no ônibus e alguém senta-se ao lado, é comum ver a pessoa puxar a conversa somente para ver se estão sozinhos.

Com a minha pequena as coisas são mais diretas. Como ela é a menor, ainda tem um jeitão de criança e os cabelos loiros e cacheados, vejo que cativa toda a gente. Hoje, ao entrarmos no ônibus que pegamos todas as manhãs, as senhoras que estavam presentes quase que disputaram para ficar com a Vivi no colo, rs... É muito engraçado de ver e gratificante de saber de um local que cuida da infância.


A experiência que estamos vivendo deixa-me, cada vez mais, pensando que para o pessoal de cá, o problema não é só da pessoa mas da comunidade. Algo parecido presenciei quando estive nos EUA, mas neste caso, no "mundo adulto." O sentido de comunidade é muito forte.

Isso fez-me pensar muito naquilo que vemos para copa. Ontem vi que a Adidas foi repreendida pelo Ministério do Turismo por lançar camisetas e produtos para a copa dentro de uma perspectiva da exploração sexual e da visão que no Brasil é só sexo.

Pensei muito em nossas crianças pois conhecemos como a exploração infantil é enorme. Ao mesmo tempo fiquei a imaginar se os mesmos indivíduos que estão "gritando" para o falhanço da copa, estão comprometidas com a proteção de nossa sociedade e nossas crianças. Vários grupos de apoio e uma rede grande de pessoas ligadas ao Governo e Associações estão preocupadas com essa variante para a copa e, seguramente, precisam de apoio para conseguir proteger a nossa infância da exploração sexual. Logicamente o ótimo é existir essa proteção durante o tempo todo, mas tendo o do agora, já é um começo.

A minha conclusão, longe de ser totalmente errada, é que não! As pessoas estão muito mais preocupadas com o FB e a ação pontual que a construção e a comunidade. A primeira é rápida e não faz parte da vida, a segunda, é demorada, suada, sofrida e leva a ação para o nosso cotidiano e para dentro de nossa casa.

Pelo que parece, a "preocupação" para difundir o pensamento contra a copa, está fincados no terreno das universidades e juventude. É o mesmo terreno daqueles que frequentam as Universidades Públicas, Serviços Públicos e, portanto, diferentes da grande maioria da população. São as pessoas que a militância não alcança nem o correio eletrônico e a revolta não ultrapassa o Facebook. É a mesma classe que, por exemplo, buscam os melhores preços na feirinha dos importados, as trabalhadoras domésticas sem carteira assinada, a babá que volta para casa somente no domingo para cuidar de sua própria filha, pergunta a diferença de preço do serviço com Nota Fiscal e sem Nota Fiscal e busca a melhor festa para seus filhos, dentro de um orçamento que não se importam ter o trabalho infantil envolvido.

A visão de mundo dessas pessoas é a mesma: o problema é dos outros. O mesmo raciocínio que justifica a falação que o Governo está todo errado pauta  o pensamento que posso fazer tudo para gastar menos.

E, também, é o mesmo raciocínio que leva a ficar na internet postando coisas contra a copa e o trabalho infantil, mas alheio ao fato que são replicadores das mazelas que julgam combater pela "rede". Para essas, o que faz sentido é ficar no Facebook, no twitter e outros meios, sair à rua no dia marcado, tirar fotos pelo Instagram, "protestar" aos plenos pulmões e voltar para casa para postar no FB o que todos falaram. E negar qualquer apoio a associações e grupos que possuem algum projeto de mudança social. Esses são os papagaios que repetem o que ouvem mas sem qualquer entendimento do que se trata e, muito mais, do seu conteúdo.

Por outro lado, as pessoas que sabem que o governo é o retrato de nossas ações, estão engajadas em grupos e associações que tentam mudar alguma realidade. Seguramente essas pessoas usam a net e saem a rua, mas com muitos menos pessoas e interessados. Tomo a liberdade de afirmar que muitas destas, não possuem nem tempo para ficarem discutindo a copa pq, no fundo, como agem sobre propostas concretas, não conseguem nem entender o que se passa com o pessimismo geral sobre o momento brasileiro.

Para essa copa, realmente lute pela nossa sociedade, seja um agente, engaje-se em algo produtivo como, por exemplo, os trabalhos para proteger nossas crianças da exploração sexual. Não seja o papagaio que repete o que houve, o podle ensinado que replica suas ações ou o irresponsável que reclama o tempo todo, mas quando ganha a atenção e lhe perguntam: Então! Você falou que está tudo errado, mas o que vc está fazendo para melhorar?

- Hummm, não sei!Estou no FB replicando o que meus amigos postam.

Assim como não existe o tudo como ótimo, não há o tudo como péssimo. 

Abraço!

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